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domingo, 29 de julho de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

As lutas de Batman e Bane são brutais
O diretor Christopher Nolan brindou os fãs de quadrinhos, do Batman (e do bom cinema por que não?) com uma graphic novel cinematográfica. Sua interpretação realista e sombria do Homem-Morcego foi apresentada em filmes maduros e provocativos. Tudo começou com Batman Begins ("Não é quem eu sou por dentro, mas o que eu faço é que me define"), prosseguiu com Batman - O Cavaleiro das Trevas ("Morra como um herói ou viva o suficiente para se tornar o vilão") e termina (ou não?) com Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

A trama deste novo filme é relativamente simples, mas extremamente dependente das obras anteriores justamente por sua proposta de encerrar um grande arco de históiras iniciada em Begins (daí a importância de rever os filmes anteriores para não deixar passar os detalhes). 

Após os eventos mostrados no filme anterior, o Batman (Christian Bale) assumiu os crimes cometidos por Harvey Dent para não macular a imagem de cavaleiro branco que a cidade de Gotham tinha dele. A principal conseguência desta ação foi a criação de uma lei que garantiu a permanência na cadeia dos piores criminosos da cidade. Assim, Gotham City tornou-se um local praticamente livre de crimes que desfrutou por 8 anos de um período de paz.

Mas nem tudo são flores. Essa vitória do Batman foi totalmente sustentada sobre uma mentira. Mentira essa que assombra o Comissário Gordon (Gary Oldman) todos os dias. Sem a necessidade de um vigilante mascarado, o Batman nunca mais foi visto e Bruce Wayne tornou-se um ermitão que fica trancafiado em sua mansão. Entretanto, a chegada da gatuna Selina Kyle (Anne Hathaway) e do terrorista Bane (Tom Hardy) a cidade, forçam o retorno do Cavaleiro das Trevas à ação.

O filme mantém o nível dos anteriores. Ou seja, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é aquela deliciosa exceção à regra de que todo terceiro filme de uma trilogia deixa muuuito a desejar. Vide exemplos como Superman 3, X-Men 3 ou Homem-Aranha 3. Também é complicado comparar esse terceiro filme com seu antecessor justamente porque O Cavaleiro das Trevas era um filme mais "fechado", pois não dependia tanto dos acontecimentos do primeiro filme. Se o terceiro ato não é melhor que o segundo, sem dúvida, é melhor que o primeiro e almeja a conclusão de todos os questionamentos levantandos anteriormente.

A gatuna Selina Kyle é uma das personagens mais fiéis aos quadrinhos

Não dá para falar muito sobre o enredo sem entregar spoilers, mas todos os personagens apresentados são muito bem utilizados como peças de uma grande engrenagem. A Mulher-Gato de Hathaway é fidelíssima aos quadrinhos. Ela possui um código de ética bem particular e você não sabe realmente quando ela está sendo sincera ou não. Selina possui diferentes facetas que são bem exploradas pelo roteiro.

Outro ponto forte é o Bane  de Tom Hardy. Ator e diretor pegaram um personagem secundário dos quadrinhos (apesar de este ter quebrado a coluna do Batman nas HQs) e lhe deram status de primeiro escalão. No filme, temos um adversário fisicamente a altura do Batman e taticamente desafiador. As cenas de luta entre ambos são fortes e tensas. Nada de músicas. Existe apenas o som de socos e urros. Seus segredos e seu passado dão o tom para explicar toda sua ira contra o herói de Gotham, mas uma reviravolta (e o filme é cheio delas!) no fim do filme lhe tira muito de sua força simplesmente Bane NÃO é o principal vilão do filme (e isso nao é spoiler!).

Uma pena Michael Caine aparecer tão pouco. Mas há pelo menos duas cenas entre Alfred e Bruce que talvez façam a platéia recorrer a um lenço.

E, se no primeiro filme, o batmóvel ganhou status de personagem, bem como a batpod no segundo, o terceiro filme pertence ao morcego, a bat wing dos quadrinhos na visão realista do diretor é uma aeronave que permite acrobacias incríveis também em baixa altitude.

O filme conta uma espécie de última história do Batman. Ela pode acabar aqui, mas também deixa pontas soltas para prosseguir com a história estabelecida. Mas será que valeria a pena? Haveria alguma trama realmente interessante para prosseguir do ponto de onde o filme parou? Eu não sei, mas que saímos do cinema com gostinho de quero mais, isso saímos!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Amor e Outras Drogas



Cartaz do filme

Imagem; http://omelete.uol.com.br/images/galerias/Love-and-Other-Drugs/Poster.jpg


Uma crítica a indústria farmacêutica e ao sistema de saúde norte-americano. Um conto sobre um rapaz desaprovado pelos pais. Uma comédia romântica. Um retrato dos anos 90. Uma bela história de amor. O filme Amor e Outras Drogas tenta ser um pouco de tudo isso aí, mas não obtém êxito em todos esses aspectos. Enquanto algumas de suas facetas não funcionam muito bem, outras, por outro lado, chegam até mesmo a nos surpreender.

O filme, que se passa durante os anos 90, nos apresenta a Jamie Randall (Jake Gyllenhaal), um vendedor de uma loja de produtos eletrônicos de quinta categoria, extremamente carismático e conquistador que perde o emprego. Em um jantar em família, descobrimos que ele pertence a uma família abastada cujos integrante são todos bem sucedidos (com exceção dele que não para em um único emprego). Por meio de um contato do irmão mais novo, ele entra para uma turma de vendedores trainees da Pfizer.

Vislumbramos o terrível mundo competitivo das indústrias farmacêuticas que tentam a todo custo fazer com que os médicos receitem os seus produtos. Nesse contexto, o filme avança mostrando as conquistas amorosas de Jamie e seu aprendizado como vendedor de produtos da Pfizer. Durante as investidas do personagem para que um médico influente receite o Zoloft ao invés do Prozac da concorrência, ele conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma paciente precoce de Parkinson. Assim como Jamie, Maggie também é adepta do sexo casual. Ela foge das amarras de um relacionamento amoroso e todos os poréns que um namoro traz consigo.

E é nesse ponto que o filme ganha seu maior triunfo. Quando a química mágica entre Gyllenhaal e Hathaway preenche a tela, os problemas da indústria farmacêutica ficam em segundo plano (provavelmente uma tentativa do diretor de suavizar a questão). Mas quem se importa com Prozacs e Zolofts quando o que prende o espectador é descobrir se Jamie e Maggie ficarão juntos ao final do filme?

Quando a Pfizer lança o Viagra e este torna-se um tremendo sucesso, o filme ganha oportunidade para inúmeras gagues e balanceia o humor das situações que envolvem o consumo da mágica pílula azul e os obstáculos que se apresentam no caminho do relacionamento de Jamie e Maggie.

A história de amor do casal está repleta de clichês e até mesmo algumas cenas piegas (talvez por já terem sido utilizadas a exaustão pelo cinema), mas as atuações de Gyllenhaal e Hathaway são tão sinceras que isso não faz a menor diferença. Particularmente, curto o trabalho do Gyllenhaal desde Donnie Darko.

Quando o sexo casual perde aquele frescor do início, Maggie abaixa a guarda e admite suas fragilidades, nem Jamie pode resistir. Você pode ser o maior conquistador do planeta, mas quando conhece a pessoa certa, não há escapatória: você é vítima de uma certa droga para a qual indústria farmacêutica nenhuma no mundo tem cura. ;-)



Trailer oficial

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Missão: Impossível - Protocolo Fantasma



Pôster do filme

Imagem: http://www.cinematrilha.com/wp-content/uploads/2011/12/Miss%C3%A3o-Imposs%C3%ADvel-Protocolo-Fantasma.jpg

Uma das grandes sacadas de Tom Cruise em toda sua carreria foi ter transformado um cult seriado de TV antigo em franquia cinematográfica. Assim nasceu Missão: Impossível para os cinemas. E, com o detalhe de cada filme possuir um diretor diferente, a franquia se renova a cada episódio.

Não é diferente com este quarto filme Missão: Impossível - Protocolo Fantasma. O diretor Brad Bird (das animações da Pixar como Os Incríveis e Ratatouille) imprime um novo fôlego a cinessérie com suas tomadas alucinantes e até mesmo um humor que não estava presente nos episódios anteriores. Para confrontar o desgaste natural que a série sofre com os anos, Bird inseriu aquele humor para rir de si mesmo. Das mensagens que não se auto destroem em 5 segundos às bugigangas tecnológicas que deixam os espiões na mão nos momentos mais decisivos, situações engraçadas não faltam, mas sem jamais quebrar o ritmo da narrativa.

Diferente de Missão: Impossível 2 que mostrava um Ethan Hunt (papel de Cruise) bonzão em tudo, aqui os espiões são falíveis. Os planos não são perfeitos e o acaso está mais presente do que nunca. Isso parte já da premissa do roteiro. Quando a IMF invade o Kremlin durante um atentado e levam a culpa pelo ocorrido, o secretário decreta o protocolo fantasma. Sem apoio, sem autorização e sem escolha Hunt e sua equipe presiam cumprir sua missão.

Esse enredo permite aquela viagem pelo globo com diferentes "missões impossíveis" a serem cumpridas. E dá-lhe Brad Bird e sua imaginação sem limites da animação com cenas de ação de verdade. Tais como perseguições em tempestades de areia, escalada ao prédio mais alto do mundo ou uma luta dentro de um estacionamento modernoso de veículos.

Pode não ser melhor que o terceiro filme da franquia, mas está a quilômetros do segundo filme cujas reviravoltas resumiam-se a máscaras de borracha que ocultavam a identidade de alguns personagens.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras



Pôster do filme

Imagem: http://omelete.uol.com.br/images/galerias/Sherlock-Holmes-2/poster-final-em-portugues.jpg


Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras é a esperada sequência de Sherlock Holmes, de 2010, filme que trouxe ao público uma versão modernosa do imortal personagem de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). O detetive sisudo da literatura dá lugar a um homem brilhante cuja inteligência lhe rende vantagens até mesmo em combates físicos. Egocêntrico e genial, o Holmes interpretado por Robert Downey Jr. beira a loucura e cativou a audiência a ponto de ganhar esta continuação.

Diferentemente do primeiro filme que apresentava um duelo entre ciência e magia, essa nova produção lança a lógica contra a lógica ao apresentar o arquiinimigo de Holmes na literatura, o professor Moriarty (interpretdo pelo talentoso Jared Harris), como o grande desafio a ser combatido pelo detetive inglês.

Os diálogos entre Holmes e Watson (Jude Law) continuam sendo a melhor parte do longa, mas diversos pontos falhos do primeiro filme são corrigidos desta vez. Ao invés de um terceiro ato pomposo e repleto de cenas desnecessárias, aqui temos diferentes cenas elaboradas diluídas por todo o roteiro. O mesmo acontece com a investigação. No primeiro filme, toda a explicação do mistério é vomitado sobre nós no fim do filme. Na sequência, as dicas são mostradas ao longo de todo o filme para a platéia juntar as peças do quebra-cabeça junto com o protagonista.

O recurso de mostrar a "maldição" de Holmes (antever os movimentos dos inimigos em um combate para depois colocá-los em prática) é utilizado de formas diferentes para não desgastar-se. Destaque para o clímax da maravilhosa cena de xadrez entre Holmes e Moriarty em que os adversários intelectuais revelam suas respectivas jogadas ao longo do filme para sobrepujar seu adversário.

Alguns podem reclamar da nova roupagem aventuresta de Holmes no cimema, mas é inegável o charme e frescor que essa nova franquia concede ao secular personagem literário.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Imortais



Pôster do filme

Imagem:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhcic8qVgskPasQFeoiNNUc1w7ht6ajp_-_EfXSdIH3z8FWIIjclOArSrAGblOUA28A6wHtvYoPYirmoSz7DER_5slLOSLPTYPGfa_r8ndD_GKlOLU6FUQozq3bjrvGjy0XF94kWsl9G7d4/s1600/imortais_4.jpg



Quem acompanha meu blog e meus escritos, está careca de saber que curto a Mitologia Grega. Seja por sua diversidade de temas e/ou personagens cativantes que apresenta. Natural então que filmes que bebam dessa maravilhosa fonte chamem minha atenção. Imortais é mais um que entra para a lista dos filmes que tinham tudo para serem bons, mas que não empolgaram no fim das contas.

Imortais narra a história de Teseu (Henry Cavill), um humilde camponês que sofre preconceitos por não saber quem é seu pai, pois a mãe dele foi estuprada e ninguém quis se casar com ela. Devido a vida que leva, ele não acredita nos deuses gregos que sua mãe tanto venera. Ele também é um guerreiro habilidoso, pois possui um mestre misterioso que o ensinou a arte de lutar. A jornada de Teseu começa quando este cruza o caminho de Hiperion (Michey Rourke), um homem que busca vingança contra os deuses pela morte de sua família. Hiperion deseja obter o mítico Arco de Épiro, uma arma capaz de libertar os Titãs, um mal ancestral capaz de fazer frente aos poderosos deuses gregos.

Para mim, o principal problema do filme (e que, por isso, compromete toda sua estrutura) é seu ritmo. O filme é muito "não-linear". Em alguns momentos, se arrasta, em outros acelera. Alterna cenas lindas com outras de violência exagerada.

Os deuses gregos são extremamente apáticos devido a uma regra imposta por Zeus de que os deuses não devem interferir diretamente na vida dos seres humanos. Zeus é até mesmo capaz de matar seus filhos do que fazer algo para deter o avanço do vilão do filme. Atitude tão sem lógica quanto as atitudes de Hiperion.

O excesso de personagens também impede a platéia de se afeiçoar a algum personagem específico. Mesmo porque os dramas de Teseu e da sacerdotisa do oráculo (Freida Pinto) não sustentam o filme sozinhos nem de longe.

As batalhas são divertidas. Em especial as que os deuses gregos atuam, porém o uso desenfreado do recurso para mostrar que os deuses são mais rápidos que os mortais ou os Titãs torna-se maçante.

São poucas as cenas que realmente me empolgaram. A minha preferida é a que Poseidon decide intervir no destino de Teseu. "O mar sempre foi imprevisível", proclama o Deus dos Mares. Ação, tensão e trilha sonora unem-se perfeitamente nesse momento.

Saí do cinema com aquela sensação de "esperava muito mais". Se for para assistir algo digno ao transpôr a mitologia grega para as telonas, eu fico com o Fúria de Titãs original.

sábado, 26 de novembro de 2011

Batman - O Cavaleiro das Trevas

O Coringa de Heaher Ledger é perturbador!
Há alguns anos, eu escrevi uma resenha de Batman Begins onde eu lamentava o fato de que dificilmente veria um filme do Batman melhor do que aquele. Entretanto, para minha alegria, eu queimei minha língua quando fui ao cinema prestigiar o embate ideológico entre o homem-morcego e o palhaço príncipe do crime apresentado em Batman – O Cavaleiro das Trevas.

O filme funciona tão bem em tão diferentes aspectos que até a tarefa de enumerá-los é complicada. Se a obra original procurava revelar quem era Bruce Wayne (Cristian Bale) e porque ele decidiu fazer o que ele faz, esta sequencia mostra que tipo de herói seu alter ego poderá se tornar. “Morra como um herói ou viva o suficiente para se tornar o vilão” é um dos mantras que norteiam o filme. Algo a ser completamente compreendido apenas na última cena do filme. Bem como o que vem a ser a essência de um cavaleiro das trevas.

Enquanto esse cavaleiro negro não desponta na tela, nós somos apresentados a outro: Harvey Dent (Aaron Eckhart), o cavaleiro branco de Gothan, um promotor público implacável que junto a James Gordon e Batman formam um trio que está prestes a colocar praticamente todos os criminosos atrás das grades.
A sensacional batpod é o novo "brinquedo" do Cavaleiro das Trevas

O que ninguém esperava era o surgimento de um criminoso tão genial quanto doente que se valerá do medo para colocar a cidade inteira de joelhos. O Coringa (Heather Ledger em uma atuação perturbadora) não quer dinheiro ou poder, ele quer apenas ver o circo pegar fogo. Ou seja, um criminoso que nem o Batman consegue compreender e irá testá-lo até os seus limites.

Talvez para o homem morcego o mais perverso será perceber que ambos possuem mais aspectos em comum do que ele gostaria de admitir (o que fica mais do que evidente na cena do interrogatório). E que o Coringa não deixa de ser uma inspiração distorcida do próprio Batman. Oras, não é nada normal um bilionário se trajar de morcego para espancar bandidos durante a madrugada.

Um agente da ordem. Um agente do caos. Entre eles uma cidade inteira e a alma de um homem: Harvey Dent. O homem que Wayne considera o ideal para substituí-lo quando o Batman aposentar sua cruzada e a mesma pessoa que o Coringa deseja desesperadamente corromper.

O Cavaleiro das Trevas mexe com a audiência ao mostrar como o bem pode se macular ao enfrentar o verdadeiro mal. E é justamente pelos conflitos de ideias que nos provoca – e não somente pelas  espetaculares cenas de ação (tais como a da sensacional batpod) – que o filme se sustenta. Afinal, o Coringa é um oponente muito mais psicológico do que físico ao Batman.

Cris Nolan e seu Cavaleiro das Trevas, um tremendo sucesso de bilheteria, nos provam que um blockbuster não precisa ser um filme descerebrado. Pode ser sim inteligente e muito emocionante!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Palhaço



Selton Mello é o palhaço em conflito Pangaré

Imagem: http://omelete.uol.com.br/images/galerias/O-Palhaco/O-Palhaco-poster-07Jul2011.jpg


Conferi no último fim de semana o segundo filme dirigido por Selton Mello: O Palhaço. A produção é uma linda homenagem a arte do circo, em especial (obviamente) a arte de fazer rir, ao mesmo tempo que mescla referências a grandes cineastas e traz aquele frescor tipicamente brasileiro ao narrar as aventuras e desventuras de um grupo de artistas circences pelo interior do país durante a década de 70.

A trama central do filme não é original, mas a forma como é narrada certamente sim. Benjamin (Selton Mello) é o palhaço Pangaré. Ele é filho do dono do circo e também palhaço Puro Sangue (Paulo José). Sempre que o circo chega a uma nova cidade, ele precisa decorar o nome do prefeito e da primeira dama, do maluco da cidade e providenciar tinturas de cabelo, medicamentos e até alças de sutiens para os artistas. Enfim, ele vive tão atribulado cuidando do circo do pai que não tem tempo para si. Como muito bem colocado pelo protagonista (até mesmo no trailer): "Eu faço os outros rirem, mas quem vai me fazer rir?"

Benjamin é um palhaço em conflito. Ao que parece, ele nasceu no circo e tornou-se palhaço para seguir os passos do pai, mas nunca teve a oportunidade de escolher tal profissão. Esse dilema o levará a repensar sua real vocação para a arte do circo. Muitas tramas do filme ficam subentendidas, pois não são escancaradamente explicadas. (O que certamente incomodará a platéia acostumada com tiros e explosões.) Os diálogos do próprio protagonista são sempre breves justamente para mostrar seu lado reservado.




Benjamin é um palhaço que não compreende a arte de fazer rir

Imagem: http://omelete.uol.com.br/images/galerias/O-Palhaco/O-Palhaco_01.jpg


Enquanto a relação de Benjamin e seu pai não vai muito bem, os outros membros da família do circo estão em harmonia e rendem os bons momentos de comédia. Metendo-se em encrencas dos mais variados tipos (gostaria de vê-los em mais situações desse tipo no filme, mas isso tiraria o foco do personagem principal), seja um almoço recheado de interesses na casa de um prefeito ou precisando de um auxílio de dois irmãos mecânicos que estão brigados há mais de 15 anos (!), o filme rende boas risadas. Daquelas que um amigo engraçado nos arranca no dia-a-dia. Sem apelação ou baixaria.

As participações especiais de ícones do humor brasileiro são um bônus a parte. Difícil é eleger a melhor. Tem que assistir a cena de Moacir Franco como um delegado contrariado de uma cidadezinha do interior pra entender o que estou dizendo.

Sem estragar as surpresas do filme, a cena que Benjamin sorri de verdade pela primeira vez e outra tomada em que ele percebe que as pessoas precisam de artistas que as façam rir são sublimes e emocionantes. Apesar de introspectivo, o filme tem diálogos muito espertos, inclusive alguns daqueles que nos fazem ficar dias pensando a respeito. O mais marcante, sem dúvida, é o do pai de Pangaré para seu filho: "Meu filho, todo mundo tem que fazer o que sabe fazer. O gato bebe leite. O rato come queijo. Eu sou palhaço. E você?"

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Homem do Futuro



"Esta noite, eu vou mudar o mundo!"

Imagem: http://noticias.r7.com/blogs/rubens-ewald-filho/files/2011/08/o-homem-do-futuro-01-g.jpg


Não é segredo pra ninguém que o cinema nacional ganha cada vez mais força. Percebemos esse processo de várias formas. Uma delas é a diversificação dos gêneros apresentados pela produção cinematógrafica nacional. Os filmes de polícia e favela podem ainda chamar mais atenção por mostrar a nossa dura e cruel realidade. Até mesmo podem ser o carro chefe dessa produção atual, mas não são o único produto nos oferecido nas prateleiras dos supermercados cinematográficos. Ainda bem.

Um ótimo exemplo dessa nova safra é O Homem do Futuro, uma ficção científica com pitadas de comédia romântica. Na medida certa, o filme discorre sobre viagens no tempo e paradoxos temporais, mas não exige demais da platéia. É inteligente, mas despretencioso.

Wagner Moura (cada ano que passa dividindo com Selton Melo o panteão das melhores fitas produzidas por estas bandas) interpreta Zero, um cientista ranzinza e infeliz que busca uma nova fonte de energia. Acidentalmente, ele cria um buraco de minhoca que o lança 20 anos no passado. Justamente no pior dia de sua vida: o dia em que ele perdeu o amor da vida dele!

Diante da possibilidade de alterar seus erros, quem não ficaria tentado a corrigí-los e garantir um futuro "perfeito"? Oras, esse é justamente o grande dilema das viagens no tempo das produções de ficção científica.




A cena do baile é uma das homenagens a antológica trilogia De Volta para o Futuro

Imagem: http://fabianacamilo.files.wordpress.com/2011/09/rtemagicc_o_homem_do_futuro_txdam8021_f9e52d.jpg


Entretanto, qualquer alteração do passado (por menor que ela seja) produz resultados imprevisíveis. Assim, o "novo futuro" de Zero pode ser pior do que a triste realidade que ele tentara evitar. Com o caos estabelecido, cabe ao protagonista solucionar todo essa confusão temporal.

Destaco a trilha sonora do filme. Impecável. Com músicas internacionais e nacionais que empolgam e ajudam a criar o clima das duas épocas retratadas no filme (início da década de 90 e fim da primeira década do século 21).

A atuação de Wagner Moura é irretocável. Ele interpreta três personagens diferentes (o cientista infeliz do começo do filme, o Zero jovem e o personagem mais autoconfiante e sereno do futuro) e consegue dar a eles toques muito especiais. Até mesmo as vozes são diferentes!!!

A Alinne Moraes está linda como nunca e justifica toda a trama do filme, afinal a personagem dela é justamente o objeto de adoração do protagonista e a razão de todas as loucuras temporais que ele faz.

De brinde, ainda temos homenagens a antológica trilogia De Volta para o Futuro (o protagonista cantando no palco e o baile a fantasia são as principais).

Se eu tiver que eleger um defeito no filme, eu diria que devido ao fato do tema "viagem no tempo" já ter sido bastante explorado no cinema americano, o roteiro pode ser previsível em alguns pontos. Porém, com maestria, o enredo se aproveita de tal sensação para nos fazer rir das situações improváveis que o personagem de Moura é colocado.

Fica a sugestão para conferir esse filmão. Cinema puro. Com atuações bacanas, trilha sonora arrebatadora e atitudes que nos fazem pensar o que poderia ter acontecido se eu ou você tivéssemos feito escolhas diferentes em determinados momentos de nossas vidas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Lanterna Verde



Hal Jordan, o primeiro Lanterna Verde humano

Imagem: http://omelete.uol.com.br/images/galerias/lanterna-verde/poster-hal-jordan-brasil.jpg


Após diversas idas e vindas, finalmente, o personagem dos quadrinhos Lanterna Verde chegou aos cinemas. Ele é um personagem do primeiro escalão da DC Comics (editora do Superman, Batman e cia) e talvez um dos que mais possua apelo cinematográfico. Afinal, LV é pura ficção cientfícia.

Os Lanternas Verdes são guardiões que protegem toda a galáxia. Ao todo são 3600 lanternas patrulando os mais longínquos setores da galáxia. Seus poderes? Nada mais, nada menos que a arma mais poderosa do universo: um anel capaz de canalizar a energia verde da força de vontade. A extensão dos poderes do usuário do anel dependem simplesmente do tamanho de sua imaginação.

Por mais estranho que possa parecer, todo esse contexto das histórias em quadrinhos que deveria ser o mais difícil de transpor para as telonas, foi feita com muito esmero. Oa, o lar dos Guardiões do Universo (criadores da Tropa) e centro do universo, é belo e fantástico nos mais diversos aspectos.

Os construtos do anel funcionam muito bem na tela. Inclusive, as batalhas de construtos (em especial na cena de treinamento de Hal Jordan) são as melhores passagens do filme. E aí esta justamente o problema!



Os construtos do anel são a grande diversão do filme

Imagem: http://omelete.uol.com.br/images/galerias/lanterna-verde/20Abr2011_03.jpg

Oras, se as melhores partes do filme são aquelas com efeitos especiais...cadê o roteiro? E as atuações? Está tudo lá, mas sem o mesmo brilho do construtos esmeraldas.

A história resume-se ao enredo de origem tradicional: herói, vilão e mocinha. E as boas atuações ficam a cargo de personagens secundários tais como Sinestro (Mark Strong) e Hector Hammond (Peter Sarsgaard).

Assim, temos um Lanterna Verde que morre na terra e encarrega seu anel de encontrar um sucessor. O anel escolhe um humano arrogante e irresponsável chamado Hal Jordan (Ryan Reyolds), um piloto de testes. Nem mesmo Hal acredita que possa ser um bom Lanterna Verde, mas lhe é dito que o anel nunca erra e é capaz de enxergar algo que ninguém mais tenha visto. Daí em diante segue-se a jornada do herói em busca de superação para vencer seus medos internos e externos.

Confesso que tinha um grande preconceito contra Ryan Reynolds para intérprete do protagonista Hal Jordan. Mas tal preconceito é o mesmo que a Tropa dos Lanternas nutre por um humano torna-se um novo portador do anel. Se Ryan não tem aquele diferencial como ator, também não atrapalha.

Outro ponto que possa ter tirado do filme todo seu potencial é o seu grande mal a ser vencido: o vilão Parallax, a energia amarela do medo. Esse vilão é inteiramente feito por computação gráfica e não cria empatia com o público. Resume-se a uma cabeça gigante com tentáculos. Ou seja, além de não nos meter medo, o vilão por pouco não faz a platéia rir.

Efeitos especiais primorosos já não são mais sinônimos de bons filmes como antigamente. Lanterna Verde não é um filme ruim. É apenas bom. Se tivesse sido lançado há uns 5 anos ou mais, teria sido excelente. Mas após o mercado cinematográfico ter tornado os filmes de super-heróis praticamente em um novo gênero, o nível de exigência sobe. E muito. Especialmente, após filmes como X-Men 2 e Batman - O Cavaleiro das Trevas.

A platéia não quer mais e tão somente pancadaria entre heróis e vilões. Ela quer também roteiros instigantes com personagens cativantes e surpreendentes. E estes são elementos que ficaram de fora deste primeiro longa metragem do gladiador esmeralda.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe



Os cartezes da produção remetem sempre a essa ligação entre passado e o futuro

Imagem: http://100grana.files.wordpress.com/2011/03/x-men-first-class-poster-03.jpg?w=550&h=812


Há alguns anos, um tal de Bryan Singer dirigiu um filme chamado X-Men. O longa contava a história de um grupo de mutantes (pessoas que nasceram com habilidades sobre humanas), que juraram proteger uma sociedade que os teme e odeia. Eles eram liderados pelo Professor Xavier, defensor de uma convivência pacífica entre humanos e mutantes. O grande rival dos heróis era Magneto, um terrorista que acredita em um guerra iminente entre humanos e mutantes.

O grande trunfo desse filme era dar uma seriedade nunca antes vista para uma adaptação para as histórias em quadrinhos. Ali não havia espaço para uniformes espalhafatosos ou cenas de ação gratuitas. Era um filme sobre a intolerância que estava sujeito a múltiplas interpretações. E personagens carismáticos com os quais qualquer um poderia se identificar. O que abriu caminho para uma série de adaptações que viriam depois.

Não demorou para X-Men 2 estrelar nos cinemas. A sequência era melhor que original. Mais ação, mais mutantes e um roteiro mais interessante com direito reviravoltas sensacionais e um final surpreendente.

Porém, Singer saiu da cadeira de diretor e um X-Men 3 bem sem graça nos foi apresentado. Ação demais com história de menos. Personagens demais para um filme muito curto. Pronto. Sem mais filmes de X-Men.

A alternativa da Fox foi produzir filmes solo dos personagens mais populares. Eis que surge X-Men Origens: Wolverine. Um filme de ação da pior espécie. Sem roteiro, o filme segue de uma luta a outra sem descanso. Desnecessário dizer que incluiram mutantes demais apenas para a venda de bonecos. O filme ainda tinha aquele vício terrível das histórias em quadrinhos: fazer dois personagens que estão do mesmo lado brigarem por um mal entendido para se unirem mais tarde.

A seguir, teríamos um filme de Magneto, mas eis que Singer volta para o projeto cinematográfico dos mutantes com uma nova abordagem. Voltar no tempo para narrar o início de tudo. Essa é justamente a proposta de X-Men: Primeira Classe.



Charles e Erik: uma amizade turbulenta

Imagem: http://www.omelete.com.br/images/galerias/x-men-first-class/24Mai2011_03.jpg


Sem dúvida, o grande trunfo desse novo filme é utilizar eventos históricos reais para dar uma credibilidade a fantasia. Assim, em um mundo que não sabe da existência dos mutantes, temos a história de dois jovens, Erik (Michael Fassbender) e Charles (James McAvoy). O primeiro é um judeu capaz de controlar metais cuja família foi vítima dos campos de concentração. O segundo é um boa vida muito inteligente e perpicaz devido a sua habilidade mutante: a telepatia.

O caminho dos dois jovens se cruzam por causa de Sebastian Shaw (Kevin Bacon), um mutante poderosíssimo (seu poder é uma das surpresas do longa), responsável pela morte da mãe de Erik e que arquiteta um plano mirabolante que pode colocar o mundo inteiro em perigo.

Nesse contexto, os jovens mutantes se tornam amigos e formam um grupo de mutantes (a primeira classe dos X-Men) para combater O Clube do Inferno de Shaw, uma espécie de sociedade secreta super poderosa e com ligações com o alto escalão do poder.

Esse contexto garante um filme bem maduro com ótimas atuações (mérito mais que especial para o trio de protagonistas) e se aprofunda em questões dramáticas. Seja o já conhecido debate de idéias de Charles e Erik ou até mesmo a questão de Mística (Jennifer Lawrence) em esconder sua real aparência por meio de seu poder (se transformar em outras pessoas) por não conseguir se auto aceitar.

Diferente dos filmes anteriores, esse também tem o mérito de fazer dialogar as questões dramáticas dos personagens com as boas cenas de ação e os uniformes espalhafatosos (em especial do de Banshee) que não ficam ridiculos na tela grande devido ao contexto em que aparecem.

Os pontos fracos são justamente os erros antigos cometidos em filmes anteriores. Inserir mutantes demais é um deles. Não sou um expert em X-Men. Sai do filme sem saber o nome do mutante que controla o vento e não me recordo de ouvir a voz de Azazel, o mutante teleportador, durante todo o filme. Também me parece estranho escolher personagens menos conhecidos do grande público. O que aquela mutante com asas de mariposa estava fazendo no filme?

E, claro, alguns desenvolvimentos de personagens deixam a desejar. O que justifica o ódio de Magneto contra a humanidade se o responsável pela morte de sua mãe era um mutante? O que fez um jovem rico e bem de vida como Charles resolver promover o bem? Mas o maior de todos os pontos: como Erik e Charles se tornaram tão amigos em tão pouco tempo? Nos filmes anteriores, a impressão que nos é passada é de que eles foram amigos por anos antes de romperem a amizade. Não por poucos dias.

Enfim, erros passáveis diante de um bom programa. E o melhor: sem Wolverine (que nos filmes anteriores sempre ganhava tanto espaço que suprimia personagens melhores). Afinal, X-Men não é só Wolverine. Entretanto, da metade para o final o filme me pareceu muito semelhante aos anteriores apesar do clímax empolgante. Ficamos no aguardo para ver o que de novidade X-Men pode nos oferecer em seu futuro cinematográfico.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Se Beber, Não Case! 2



Cartaz do filme
Imagem: http://www.omelete.com.br/imagens/cinema/artigos2/se_beber_nao_case_2/poster.jpg


Ano passado Se Beber, Não Case! veio parar em minhas mãos. A comédia conta a história dos amigos Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha) que planejam uma despedida de solteiro em Las Vegas. Porém, tudo sai do controle quando eles acordam no dia seguinte sem se lembrar de nada do que fizeram na madrugada anterior, com um trigre na suíte em que se encontram, um bebê que não sabem de quem é e o pior: o noivo sumiu há poucas horas do casamento!

A partir daí, inicia-se uma corrida contra o tempo para o "bando de lobos" refazer seus passos, reencontrar o noivo e garantir que o casamento de Doug aconteça. Realmente, hilário e imprevisível. E esse segundo adjetivo é justamente o ponto mais forte do primeiro filme e o grande defeito do segundo.

Se Beber, Não Case! 2 já perde pontos por não contar com o frescor do original. Ele simplesmente repete as fórmulas do primeiro filme. Então, se já não bastasse a piada contada pela segunda vez (4 amigos se reúnem para uma despedida de solteiro e novamente ficam chapados a ponto de não se lembrarem de nada do que fizeram às vesperas do casamento), o filme apresenta situações que são praticamente uma refilmagem do primeiro.

As piadas estão todas lá. Se no primeiro, um deles acordou sem um dente, desta vez desperta com uma tatuagem no rosto. Da primeira vez, acordam com um bebê que não sabem de quem é, agora eles tem um macaco de mascote. Em Las Vegas, o noivo sumiu. E agora em Bancoc, é irmão da noiva quem está desaparecido.

Se corremos o risco de perder a graça contando duas vezes a mesma piada, só resta uma alternativa: exagerar os eventos. Todos que me recomendaram o primeiro filme o definem como "muito louco". Para superar o filme anterior "muito louco", o que fazer então? Extrapolar.

Outro ponto negativo é justamente essa necessidade de ser "over". Falta de memórias causadas por bebedeiras é algo trivial. Qualquer grupo de amigos faz. Mas para justificar um filme é necessário ir muito além. Então, ter um amigo traficante que "dá um tapa" no café da manhã faz parte. Não basta pegar uma mulher feia para virar chacota dos amigos, tem que ter um transexual na história para garantir as gargalhadas. Some-se a isso tiros, russos malvados, atuações exageradas e reviravoltas desnecessárias para ter certeza de que essa segunda parte foi a consequência natural de um primeiro filme que rendeu muita grana.

Não estou dizendo que o filme não é divertido. Você vai rir muito e seu queixo vai cair diversas vezes com as situações absurdas em que o trio de protagonistas se mete, mas a sensação de que "eu já escutei essa piada antes" será algo constante. Diferente do desfecho do primeiro filme, quando a gente dá aquele sorriso de satisfação tentando se recordar sem sucesso de um filme semelhante, desta vez você não irá dizer pra si mesmo: "esse filme é muito louco".

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Thor


Pôster da produção
Quando é anunciado um novo filme baseado em histórias em quadrinhos, quem gosta da obra original fica apreensivo e ansioso para ver o resultado da empreitada. Mas, ao mesmo tempo, nos tornamos receosos por descobrir algo mal feito. Seja por um roteiro raso ou por uma adaptação errônea que não dê aquela seriedade que determinados personagens e temáticas exigem. Isso é ainda mais cruel quando se trata da temática de super-heróis (que facilmente podem cair no ridículo). Esse era o grande temor dos fãs de Thor. Diferentemente do Homem de Ferro ou do Hulk que possuem suas peripécias justificadas pela ciência. Aqui temos um deus do trovão que vive em um universo paralelo e integra uma mitologia toda fundamentada na magia. Fico contente por estar aqui para registrar que essa adaptação foi produzida de forma muito competente.

Sem dúvida, o principal mérito da produção é ter na direção Kenneth Branagh. O diretor, famoso por suas adaptações de Shakespeare, não se limita a narrar uma história de super-heróis. Ele disserta sobre as intrigas de uma realeza mítica. Realeza esta formada por personagens tão poderosos que a simples revelação de sua existência para os antigos vikings em tempos antigos faz com que estes os idolatrem como deuses e inspirem a mitologia nórdica. E por deterem tanto poder, as intrigas de tais personagens se refletem em todo o universo. O que invariavelmente atingirá a Terra.

O filme narra a saga de Odin, o Pai de Todos e Rei de Asgard, e seus dois filhos Thor e Loki. Thor, o deus do trovão, está prestes a ser coroado por seu pai como novo rei. Porém, a cerimônia é interrompida por um inesperado ataque dos Gigantes do Gelo, uma raça de criaturas com quem Asgard mantém um acordo de paz. Odin resolve rapidamente a situação. Mas Thor encara tal ousadia como uma ação que deve ser punida com sangue.

Intempestivo, Thor reúne seus companheiros de batalha e provoca uma grave quebra ao acordo de paz com os Gigantes do Gelo. Vendo que seu arrogante filho não está pronto para ser rei, Odin bane Thor de Asgard para viver na Terra sem seus poderes. Assim, a história começa com o deus do trovão (agora mortal) em busca de sua redenção. Entrementes, Loki, o deus da trapaça, encontra nesse contexto, a oportunidade perfeita para tomar o controle de Asgard e livrar-se de seu poderoso irmão que está exilado na Terra.

Após assistir ao filme, entro para o grupo dos que defendem que este seja o melhor filme baseado nos personagens da Marvel feitos até aqui. Os filmes do Homem de Ferro são muito divertidos e apresentam cenas empolgantes. Mas o roteiro não apresenta inovações. Grande parte do sucesso desses filmes dependeram (e muito!) da atuação superlativa Robert Downey Jr. no papel principal. Tire-o dali e os filmes não se sustentam da mesma forma nem de longe. Já o Hulk se resume basicamente a uma criatura monstruosa criado em computação gráfica esmurrando e destruindo tudo que aparece em seu caminho. Não revela-se muito interessante na tela grande (apesar de eu ter gostado bastante do filme de Ang Lee de 2003).

Entretanto, Thor não depende exclusivamente de efeitos especiais ou de um ou dois atores com boas atuações. O filme todo funciona por uma série de fatores. O que para uma superprodução dessa escala deveria ser um processo natural.


A magnífica Asgard cinematográfica
A magnífica Asgard cinematográfica se revela como um reino muito avançado que mescla magia com ciência. Algo além de nossa compreensão, mas funcional. Quando escurece e olhamos para o céu, Asgard se revela como uma das estrelas mais brilhantes do céu. Simples e singelo assim.

Aliás, muitos detalhes do filme são apresentados desta forma. Apesar de fantásticos, são tão verdadeiros para os personagens que acabamos embarcando na mentira. Como diz Thor, "antigamente a humanidade acreditava em magia. Hoje chamam essa magia de ciência. De onde venho, ciência e magia são a mesma coisa". Muitos personagens também possuem um apelo um pouco infantil que os tornam cativantes. Vide a cena em que Thor é encontrado por seus amigos de Asgard na Terra.

Vale destacar também a ótima seleção de elenco. Não há nenhuma ator que destoe dos demais. Anthony Hopkins é Odin e ficá-lo elogiando é chover no molhado. Não dá pra imaginar outra pessoa em seu lugar. Chris Hemsworth encarna muito bem um deus em busca de humildade. Mas quem assistiu ao filme há de concordar comigo que Tom Hiddleston é que faz um trabalho deveras surpreendente como Loki. Ele não é simplesmente um vilão ou irmão invejoso. Suas ações tem raízes bem mais profundas que vão desde a descoberta sobre suas origens até o tratamente que sempre recebeu de seu pai desde a infância.

Outro ponto interessante é o reflexo da personalidade dos personagens nas batalhas. Enquanto, Thor é pura força bruta lançando seu martelo Mjolnir contra os adversários sem dó nem piedade, Loki é mais esguio enganado os inimigos com ilusões e os surpreendendo-os covardemente pelas costas.

Só não entendi o excesso da utilização do ângulo holândes (aquela técnica cinematográfica que desequilibra a linha do horizonte para causar a sensação de deslocamento). Ela funciona muito bem nas cenas em que Loki manda e desmanda em Asgard, mas não se justifica nas cenas na Terra.

Também é muito criticado o fato de Thor ter mudado em pouco tempo durante o filme (a história se passa em poucos dias), mas levando em conta tudo o que personagem passou em tão pouco tempo e assistir a uma cena tão bem dirigida como a do combate contra o Destruidor (confundido com uma das armaduras do Tony Stark pelos agentes da S.H.I.E.L.D.) cujo final é simplesmente espetacular, só nos resta deixar esse detalhe de lado e acreditar no deus do trovão.

sábado, 9 de abril de 2011

Sem Limites




Pôster do filme

Imagem: http://www.omelete.com.br/images/galerias/Limitless/Limitless_Poster-2.jpg


A premissa desse filme é sensacional. O que você faria se pudesse se tornar a versão perfeita de si mesmo? Fui fisgado por um trailer que vi no cinema. Nem tinha conhecimento do filme. A sinopse é simples, mas as possibilidades narrativas são imensas!

Eddie Morra (Bradley Cooper) é um loser no pior sentido da palavra. Sua vida profissional é um fiasco (ele é um aspirante a escritor que anda deprimido e sem criatividade para produzir sua primeira obra) e sua vida pessoal vai ladeira abaixo (está sem grana por estar desempregado e sua namorada acaba de romper com ele por não enxergar futuro na relação).

Eis que no caminho de Eddie surge uma pílula mágica, uma droga experimental, que ativa os 100% de nossa atividade cerebral. Ao ingerí-la, o mundo de Eddie se ilumina (literalmente), ele descobre conexões entre diversos elementos ao seu redor; enxerga saídas e idéias onde ninguém mais vê; aprende novos idiomas apenas ao escutá-los e se recorda de tudo que já viveu na vida. Ele até é capaz de lutar imitando os movimentos de Bruce Lee em filmes antigos que assistiu quando era criança!

O aspirante a escritor escreve seu primeiro livro em 4 dias! A matemática se torna sua aliada e ele ganha muito dinheiro com diferentes tipos de aplicações. Enfim, Eddie não se torna apenas dono de um QI de quatro dígitos, ele também tem ânimo para fazer tudo isso e sabe exatamente o que tem que ser feito. Obviamente, essa escalada vertiginosa rumo ao sucesso e ao poder não passa despercebida por outras pessoas influentes e perigosas. E aí o filme fica mais interessante.

O roteiro passa por diversas situações explorando as possibilidades do que poderia acontecer se uma droga experimental que dá super inteligência ao seu usuário existisse no mundo real. Então, vemos a pílula caindo nas mãos de gente errada, pessoas que tem medo da habilidade que ela confere e a crescente sensação desesperadora de que o pacote de pílulas do protagonista chegará ao fim em determinado ponto.

O recurso de mostrar o mundo sem a pílula com cores frias e acinzentado é muito interessante. Pois, quando a pilula é ingerida, o usuário da droga (e a platéia) enxerga o mundo mais colorido, brilhante e carregado de cores quentes. O impacto é imediato. Assim como o protagonista, ficamos mais confiantes, esse novo mundo é mais agradável e não dá vontade de sair dele. Mais ou menos como algo a nos viciar. Mas viciar-se em algo geralmente não é algo bom...

Divertido é ficar imaginando o que você faria se você tomasse a pílula. Que caminhos percorreria e onde trilharia os mesmos erros e acertos de Eddie. Muito inteligente e instigante. Sem dúvida, um dos filmes mais interessantes do ano. Recomendadíssimo.

domingo, 27 de março de 2011

Sucker Punch - Mundo Surreal



Babydoll contra um samurai armado com uma metralhadora

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Zack Snyder fez novamente. O diretor de 300 e Watchmen nos apresenta mais uma vez um filme com uma estética visual totalmente particular (dá-lhe câmeras lentas intercaladas com cortes rápidos) e arrojada que o publico odiará ou amará.

O direferencial desta vez é que Sucker Punch - Mundo Surreal não é baseado em uma história em quadrinhos ou nas idéias de outras pessoas. Trata-se do primeiro trabalho autoral do diretor. Das idéias do enredo, passando pelos personagens até sua linguagem audiovisual...tudo leva a assinatura de Snyder.

A película narra a triste história de Babydoll (Emily Browning), uma garota que é internada em um hospício por seu cruel padrasto. Dentro de cinco dias, ela será lobotomizada. Para evitar esse destino, ela cria um mundo imaginário onde precisa encontrar cinco objetos que lhe garantirão a salvação. Em suas aventuras, ela será auxiliada pelas amigas Rocket (Jena Malone), Blondie (Vanessa Hudgens), Sweet Pea (Abbie Cornish) e Amber (Jamie Chung).



Um dos cartazes da produção

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Então, a partir desse mundo surreal e imaginário que se passa na mente de Babydoll, o diretor pode brincar a vontade com referências a cultura pop. Sem se importar com geografia, linhas do tempo ou regras da física. Há lutas com samurais gigantes no Japão feudal, duelos contra orcs, zumbis e até um dragão! A batalha do trem contra uma legião de robôs assassinos é plasticamente impecável, por exemplo. Mas também existe a preocupação comercial em atrair a platéia masculina adolescente. Isso obviamente nos é delatado ao colocar lindas mulheres em trajes sumários detonando criaturas bizarras.

Pessoalmente, adoro ficção e fantasia. Mas não me agrada a sensação de ter um ator em meio a um cenário de pura computação gráfica. Isso fica evidente nos devaneios de Babydoll justamente para nos lembrar que aquilo não é a realidade. O porém dessa atitude é justamente tornar menos verossímel o que esta acontecendo. Se a sensação de perigo não é real, não tememos pela personagem. Se não torcemos por ela, não nos emocionamos tanto. Simples assim.

Isso tanto é fato que minha cena preferida é justamente o prólogo. Nessa cena inicial que acontece na realidade, nos é revelada uma cadeia de eventos que culmina em um confronto entre Babydoll e seu padrasto (embalada pela canção Sweet dreams interpretada pela própria atriz Emily Browning) que termina tragicamente. São estes acontecimentos que condenam a protagonista a parar no hospício.

Desta forma, temos três níveis de realidade que nos é apresentado. A realidade mostrada no início e fim do filme, o cabaré (que é como Babydoll enxerga o hospício onde se encontra) e o mundo surreal para onde ela escapa quando passa por momentos de dificuldade no mundo real.

A trilha sonora é um dos pontos fortes do filme. Embala os dramas das personagens apresentadas com eficiência e o volume sobe durante as cenas de ação para empolgar a audiência.

O desenrolar da trama é simples sem grandes ousadias. É interessante notar como as demais personagens vão aos poucos se afeiçoando a Babydoll, uma garota aparentemente frágil que age mais do que fala e se coloca em risco sem hesitar quando precisa proteger os entes queridos.

Considero o final da trama seu ponto mais fraco. Ela explica demais o que não precisa ser explicado (quanto menos explicação, mais aberto a interpretações o filme se tornaria) e recorre a uma última reviravolta desnecessária para toda a jornada da heroína (a revelação do quinto e último elemento necessário para a fuga do hospício).

Entretanto, o filme diverte e provoca. Ao contrário de muitas pessoas da vida real, a Babydoll (cujo verdadeiro nome nunca nos é revelado) do filme tem atitude. Ela age quando é preciso e se vale dos parcos recursos que dispõe para mudar a realidade ao seu redor. Quantas pessoas você não conhece que enxergam o mundo repleto de coisas erradas ao seu redor e não se mexem para mudá-lo? Em uma palavra, eu definiria Sucker Punch como desconcertante.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Anti-herói americano


Pôster do filme

Imagem: http://www.cranik.com/images/antiheroiamericano.jpg

Você acha a sua vida sem graça? Conheça a vida de Harvey Pekar e você repensará seus conceitos. Pekar tinha um emprego como arquivista em um hospital em Cleveland. O serviço era chato e ele fazia as mesmas coisas todos os dias. Seus casamentos (isso mesmo, casamentos!) não davam certo e seus amigos eram os mais inusitados da região. Não à toa, ele vivia emburrado e deprimido.

Um dia, ao derrubar alguns arquivos, Pekar leu um obituário sobre um homem que foi balconista durante toda sua vida. Decidido a não ter o mesmo destino que o daquele homem, Pekar, um destes observadores que têm opinião sobre tudo e todos, resolve escrever histórias em quadrinhos sobre sua própria vida. O problema é que ele não sabe desenhar.

A solução foi apresentar seu material para o então quadrinhista alternativo em ascensão, Robert Crumb. Crumb adorou o material que leu e o ilustrou. Assim nasceu American Splendor (a história em quadrinhos que retrata a vida de Pekar). Sem fantasia, sem super-poderes ou roupas coloridas, o gibi é real como o filme. Justamente por ser diferente, ganha fiéis leitores.

Embora, Anti-herói Americano seja considerado drama, ele possui mais jeito de documentário. Não é um filme narrativo convencional, pois não possui clímax, por exemplo. A película une situações da vida de Pekar dramatizadas a depoimentos do Pekar da vida real (sim, ele continua vivo e igualmente avarento).

Devido a esse esquema de narração, é impossível não comparar ficção e realidade e não há como não notar o talento de Paul Giamatti que encarna Pekar nas passagens que deram vida a memoráveis páginas de American Splendor.

Discreto, elegante e inteligente, Anti-herói Americano não é e nem nasceu para ser um blockbuster. É daqueles alternativos que merecem ser descobertos. Ao final do filme, bate aquela vontade de ler American Splendor já que a HQ permanece inédita no Brasil, apesar de ser publicada nos Estados Unidos desde 1976.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Guerra dos Mundos



Pôster do filme

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Um inesperado ataque alienígena assola o planeta Terra. “Parece o 4 de julho”, dispara o personagem de Tom Cruise, mas Guerra dos Mundos não é Indepence Day. O segundo encontro do astro Cruise com o diretor Steven Spielberg (o primeiro foi em Minority Report – A nova lei) deixa a ação de lado e prioriza as emoções contidas nos frágeis laços familiares de um pai ausente com seus filhos para discorrer sobre o medo, a morte e a luta desesperada pela sobrevivência.

Ray Ferrier (Cruise) é um estivador que trabalha nas docas de Nova York e deve cuidar de seus dois filhos, Robbie (Justin Chatwiny) e Rachel (Dakota Fanning), enquanto sua ex-esposa Mary Ann (Miranda Otto) faz uma viagem à casa dos pais em Boston. A tarefa não é tão simples, pois Ferrier está longe de ser o melhor pai do mundo e parece curtir mais a liberdade de ser solteiro do que a responsabilidade de ser pai.

O valor que Ray não dá a essa paternidade despertará violentamente quando um evento de proporções épicas – um surpreendente ataque alienígena ao nosso planeta – toma forma. Agora, o ausente pai, terá de fazer de tudo para garantir a vida de seus filhos.

Claramente, a invasão alienígena não é o foco principal da trama. O que atrai as lentes de Spielberg são as relações de Ray com seus filhos. Ele se redimirá como pai? Garantirá o conforto e segurança de sua prole como nunca fez antes? A invasão alienígena é o gatilho para essas emoções aflorarem, assim como um ataque terrorista poderia provocar isso (não é à toa que a primeira pergunta da pequena Rachel sobre os ataque é “São eles? Os terroristas?”). Esse tipo de diálogo não apenas evidencia o medo contemporâneo da população norte-americana como também enaltece a atualidade da obra.

As cenas que mostram os seres humanos brigando por algo (o carro em que Ferrier e sua família estão, por exemplo, na mais impactante cena do filme) que lhes garantam mais alguns minutos de vida são angustiantes. E a luta pela sobrevivência travada por cada um dos personagens, a sua maneira, é surpreendente ao mostrar até onde um ser humano pode chegar para ter o que quer, mesmo que isso custe a vida de um semelhante.

Por dar tanta ênfase a esse lado emocional de um filme com maravilhosos efeitos especiais (o que garante que a computação gráfica não tome o lugar do enredo), não é de se espantar que os alienígenas propriamente ditos não tenham tanto espaço na trama. Talvez, os mais aficionados por ficção científica reclamem por falta de explicações aqui e ali, mas todas as respostas estão lá, embora não dadas gratuitamente.

Grande parcela do público achará o fim demasiadamente complicado ou muito simplório, mas ninguém pode dizer que informações foram omitidas. Elas estão presentes, mas sem grandes alardes. Por isso mesmo não cabe aqui ficar se aprofundando sobre isso para não estragar as surpresas. Se, por acaso, ficar sem entender algo, basta rever o filme ou conferir alguns grupos de discussões pela net.

Os alienígenas são tão secundários que nem mesmo sua origem é levantada. Ok, na novela de H.G. Wells na qual a película é baseada tratam-se de marcianos, mas colocar isso em um filme contemporâneo não faria o menor sentido (quantas sondas não escanearam Marte a procura de formas de vida mais desenvolvidas e até o momento não encontraram nada?).

Se, a despeito da guerra, o filme passa alguma mensagem, certamente é a de que nem mesmo o maior poderio bélico é garantia de segurança, pois sempre terá alguém com um canhão maior (no caso, uma frota alienígena com uma tecnologia avançadíssima). Brincadeiras à parte, o filme faz uma leve crítica ao desenvolvimento de armas de destruição em massa. É mais provável que a nossa salvação esteja no nosso próprio lar: o planeta azul que tanto castigamos.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cães de Aluguel



O pôster da produção

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Cães de Aluguel é o primeiro filme do badalado diretor norte-americano Quentin Tarantino. Lançado em 1992, logo o longa-metragem se tornou um cult entre cinéfilos de plantão. Com uma narrativa entrecortada que vai e volta no tempo, violência, humor negro e personagens que não param de falar, Tarantino oferece um diferencial em Hollywood: um olhar sobre personagens absurdamente verossímeis de um mundo cruel que não fica muito distante do nosso.

No filme, Joe Cabot (Lawrence Terney) é um experiente criminoso que reúne um grupo de ladrões que não se conhecem entre si para assaltar uma joalheria. Cada um é identificado por uma cor, pois desta forma ninguém pode conhecer os detalhes da vida do outro e nem mesmo o verdadeiro nome. No entanto, o golpe dá errado quando a polícia surge de repente. Todos suspeitam de um traidor entre eles e as acusações entre os envolvidos crescem assim como o clima de tensão até o interessante final.

Como dito acima, a verborragia é um dos elementos presentes nas narrativas de Tarantino. Mas, mais do que isso, seus personagens falam besteiras como qualquer ser humano. Não se atém apenas ao roteiro. Não possuem frases prontas. Assim como na vida real onde não vivemos apenas um enredo, mas diversos enredos ao mesmo tempo. Este filme, por exemplo, começa com uma elucidativa explicação sobre “Like a Virgin”, de Madonna, oferecida por Mr. Brown (Tarantino em um papel coadjuvante).

Este é o talento de diretor que mais gosto: diálogos legais. O personagem pode ser um grande “filho da mãe”, mas fala coisas interessantes de se escutar. E todos os personagens demonstram através dos diálogos quem realmente são. Eles não dizem como são. Eles simplesmente o são. Como na vida real. Uma pessoa não chega para você e diz “sou assim, assim e assado”. Ela conversa com você e, desta forma, você descobre como ela é.

Outro talento de Tarantino é utilizar muito bem bons atores que, em geral, são sempre coadjuvantes em outras produções. Neste caso, dois grandes atores têm muito o que oferecer ao filme: Steve Buscemi e Michael Madsen.

Buscemi faz o personagem menos anormal da trama, o profissional Mr. Pink que tem como mantra o profissionalismo no mundo do crime (mas será que isso existe mesmo?). Já Madsen faz o assassino frio e doentio Mr. Blonde que é um verdadeiro psicopata. Aliás, ele protagoniza a cena que resume o filme: enquanto dança ao som de “Stuck in the middle with you”, Mr. Blonde tortura um policial com uma navalha. Enfim, uma faladeira inútil e muita violência. Com estilo.

Algumas curiosidades dos bastidores da produção do filme são tão interessantes quanto a própria película. Tarantino era um diretor desconhecido e não possuía nome para conseguir dinheiro com facilidade. A entrada de Harvey Keitel (Mr. White) para o projeto foi uma benção, já que o ator ajudou a angariar fundos para a produção.

De acordo com o site Cinema em Cena, “Tarantino queria que James Woods interpretasse um dos papéis do filme e chegou a fazer cinco diferentes propostas de cachê para o ator. Como todas elas eram bem inferiores ao que o ator estava acostumado a receber, o empresário se recusou a transmitir as ofertas para ele, que nem ficou sabendo da proposta. Quanto Tarantino se encontrou com Woods pela primeira vez, tempos depois, o ator ficou sabendo da proposta que havia sido feito na época do filme e ficou muito irritado com seu empresário, demitindo-o.”

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Guia do Mochileiro das Galáxias



Não entre em pânico!

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"Não entre em pânico". Esses são os dizeres em letras grandes na contracapa do Guia do Mochileiro das Galáxias, um best-seller interestelar para os viajantes do cosmos. Um livro muito bom, diga-se de passagem, para alguém que de uma hora para outra perde o seu lar e torna-se andarilho do cosmos em busca de um sentido para vida.

Arthur Dent (Martin Freeman), um britânico sem grandes metas na vida, está tendo um péssimo dia, pois descobriu que sua casa será demolida para a construção de uma rodovia. Mas o pior ainda estava por vir: Dent ficou sabendo que seu grande amigo Ford Perfect (Mos Def) é na realidade um alienígena e que o planeta Terra será destruído para construção de uma estrada interestelar. Sem opções, pega carona em uma nave espacial que estava de passagem para escapar da tragédia e passa a vagar pelo cosmos. Para sobreviver a um universo perigoso e cheio de criaturas estranhas e perigosas, ele precisa do Guia do Mochileiro das Galáxias.

O filme de Garth Jennings baseado na obra literária homônima de Douglas Adams é cômico e inteligente na medida certa. Mais do que uma jornada sem destino pelo universo, a narrativa mostra uma busca pelo sentido da vida. Dent é a encarnação da desesperança e sarcástico ao extremo, o que nos brinda com reflexões fantásticas sobre nosso dia-a-dia. Ainda mais com as situações em que se envolvem: burocracia, políticos corruptos, enfim, os mesmos problemas que encontramos por aqui, só que em outra escala.

Particularmente, não considero o filme comercial. Creio que a maioria do público achará que trata-se de um novo Star Wars e se decepcionará com a ausência de grandes cenas de ação ou os desabafos do robozão Marvin (voz de Alan Rickman, sem dúvida, o melhor personagem do filme). O que é frustrante, pois a película diverte e instiga a refletir com elegância.

Porém, mesmo para quem está atrás de um filme mais “cabeça”, talvez se decepcione com a falta de profundidade de algumas questões debatidas (isso é compreensível devido ao número vasto de temas levantados).

Se você não sair satisfeito do cinema, também não sairá com raiva achando que acabou de assistir a uma bomba. O filme pode não ser extraordinário, mas possui seu merecido valor.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os Incríveis



O pôster do filme

Imagem: http://www.rainboreviews.com/archive/incredibles/images/cover1.jpg


A Pixar já cativou seu lugar no mercado de animação. Suas produções são sinônimo de entretenimento de alta qualidade. É lógico que parte de seu sucesso se deve aos arrebatadores aspectos visuais de seus filmes totalmente produzidos digitalmente, mas também por seus roteiros: divertidas fábulas animadas que agradam a crianças e adultos. Sem falar nos personagens imensamente carismáticos. Quem assistiu a Procurando Nemo e não se lembra do pai super protetor Marlin? Depois de falar de brinquedos, insetos, bicho-papões e peixes, o novo filme da Pixar, Os Incríveis, traz como protagonistas os super-heróis.

Indo na contramão de outras animações que tentam reproduzir fielmente a realidade (e acabam mais evidenciando o irreal) como O Expresso Polar e Final Fantasy que mostram seres humanos idênticos a atores de carne e osso, Os Incríveis nos lembra a todo momento que aqueles personagens não existem de verdade, mas acreditamos nele. Todos os personagens são caricatos como um bom cartoon (o Sr. Incrível mal cabe no seu carro; Violeta é quase tão magrinha quanto uma vassoura), mas o visual é – mais uma vez – arrebatador e dá pra imaginar aqueles personagens caminhando entre nós. Os efeitos de luz e sombra, os movimentos e as bem produzidas cenas de ação fluem com naturalidade não dando aquele ar de “seres criados por computador”.

Esse filme leva as produções da Pixar a um novo patamar. Mais adulto que seus predecessores, oferece algumas piadas das quais apenas os adultos irão rir e trabalha com uma temática a qual homenageiam e avacalham ao mesmo tempo. Este provavelmente é o grande atrativo do filme, pois da mesma maneira que achamos ridículo alguém que coloca a cueca por cima das calças, somos capazes de torcer por determinado personagem e se identificar com ele. São ícones da infância e adolescência. Como no filme os personagens são desconhecidos para nós todos de alguma forma são referência a alguém conhecido. E identificar esses personagens é outra diversão.


Edna Moda é aquela personagem coadjuvante que rouba a cena sempre que aparece

Imagem: http://l.yimg.com/eb/ymv/us/img/hv/photo/movie_pix/walt_disney/the_incredibles/brad_bird/key_edna.jpg


A família protagonista do filme, por exemplo, para alguns é a formação do Quarteto Fantástico. Tirando Flecha (um Flash de 10 anos), temos o Sr. Incrível que é invulnerável e super forte (como o Coisa), Violeta que pode ficar invisível (Mulher-Invisível) e Mulher-Elástico que pode esticar seu corpo (Sr. Fantástico).

Mas esses poderes também são reflexos bem construídos das personalidades dos personagens. O Sr. Incrível é um cara confiante demais, a Mulher-Elástico é versátil, Violeta é tímida e vive se escondendo e Flecha é como qualquer garoto de sua idade que não consegue ficar quieto.

Na trama, os super-heróis são proibidos de salvar o mundo pelo governo, pois diversas pessoas os processavam e isso acarretava sérios transtornos para a máquina administrativa estatal. Mas podemos simplesmente viver nossa vida sem demonstrar quem realmente somos? O filme é sobre o que cada um tem de especial, mostrando um ponto de vista diferente da temática de super-heróis que nem sempre é (bem) explorada pelos quadrinhos.

O vilão do filme possui planos justificáveis e ele não deseja simplesmente “dominar o mundo”. A produção só não conclui muito bem essa conversa sobre ser você mesmo ou não, pois os super-heróis, embora utilizem seus poderes para fazer o bem, ocultam suas identidades sob máscaras. De uma forma ou de outra, eles escondem quem são. E o porquê disso não fica bem claro para as crianças ao final do filme.

Li diversas críticas sobre Os Incríveis falando da mensagem subliminar de que precisamos de super-heróis no mundo real para lutar contra o mal personificados por terroristas ou coisas do gênero. Veja bem: super-heróis não existem. Não há dúvidas que personagens deste tipo são uma prova cabal do medo exagerado que os americanos nutrem pelo mundo ao seu redor. Medo este que os impelem a acreditar em homens que voam ou escalam paredes. Mas tendo em mente esta realidade, os super-heróis são divertidos personagens que enaltecem os nossos problemas cotidianos, enxergando-os com mais clareza. Às vezes, é necessário enxergar a realidade por outro prima para descobrir o óbvio: nossa realidade é cruel e deveras absurda. Muito mais absurda que uma história em quadrinhos ou desenho animado.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Chamado



O pôster da produção

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Quem não gosta de um filminho no fim de semana? Nada como passar na locadora e escolher um filme ao acaso ou ficar indeciso entre tantos títulos quando o que você procurava já havia sido alugado. Então, você encontra um filme bacana. Quando chega em casa, o que vê são cenas estranhas que parecem mais um bizarro pesadelo. Quando o vídeo termina, o telefone toca e uma voz diz “sete dias”. E, por mais sinistro que possa parecer, após a anunciada semana, o inocente telespectador morre. Acho difícil encontrar um VHS deste tipo por aí, mas esta lenda urbana, uma fita amaldiçoada que mata a quem a assiste é a premissa de O Chamado (The Ring), de Gore Verbinski.

Este filme fez um grande sucesso em 2002. Ele narra a história da jornalista Rachel Keller (Naomi Watts) que, após a misteriosa morte da sobrinha – que suspeitam estar envolvida com a sinistra fita – , resolve investigar a história atrás de uma boa matéria. Ela acaba assistindo o VHS e o telefone toca para sua tristeza. Então, ela parte numa busca desesperada pela verdade por trás das imagens da fita e do responsável pelas mortes. As coisas se complicam ainda mais quando seu filho também assiste a fita por acidente.

O Chamado é um filme espetacular. Daqueles que precisamos assistir até a última cena para entendermos tudo. À princípio, ele possui uma “cara” de filmes de terror adolescente devido a morte da garota no início do filme, porém, a imagem se desfaz rapidamente para nos permitir enxergar seu verdadeiro teor: um suspense interessantíssimo muito bem construído que, entre outras coisas, conta a triste história de uma garota.

Quando o desconhecido bate a nossa porta o que podemos fazer? Não há adolescentes perturbados mentalmente com facas na mão ou assassinos seriais atrás de mais um pedaço de carne, mas sim uma força sobrenatural implacável que mata sem motivo aparente. Não há violência gratuita, muito menos sangue jorrando. Aliás, cada gota de sangue tem sua razão. É muito interessante o recurso que é utilizado: toda vez que os protagonistas estão perto da verdade, o sangue começa a escorrer de seus narizes, prenunciando a morte que está por vir.



A assustadora Samara

Imagem: http://media.adorocinema.com/media/film/images/1182/1244856302_chamado07.jpg

O trabalho bem feito com esta idéia da morte que está chegando e ninguém sabe como evitar é o grande suporte do filme. Todos sabemos que morreremos um dia. É nossa única certeza, mas não há datas ou horas marcadas. Mas e se soubéssemos do tal dia? Não faríamos de tudo para evitá-la? A busca desesperada de Rachel por uma solução para sua desgraça aliada ao seu arrependimento por ter visto a fita não seria nada sem um bom suporte técnico.

Aí entram os excelentes trabalhados de som e fotografia. A trilha sonora é boa, principalmente, por empregar um som específico para o áudio da fita. Quer dizer, mesmo sem ver, sabemos que a fita está sendo rodada e mais alguém está a um passo de receber mais um telefonema. E as cores todas voltadas para o cinza imprimem mais teor mórbido ao filme.

É óbvio que há sempre as perguntinhas do tipo “mas se eu assistir a fita num local onde não há telefone?” ou “morreremos em sete dias?” (há uma cena no filme que mostra ao espectador o conteúdo do VHS maldito). Mas trata-se apenas de um filme e nos deixando levar pelo clima, podemos curtir um entretenimento de primeira.

Eu só não entendo como uma mulher linda como Rachel e um cara como Noah (Martin Henderson), que não posso dizer que é feio, teriam um filho como Aidan (David Dorfman) que de tão assustador, em alguns momentos, torna-se mais sinistro que a misteriosa Samara Morgan.

O que muita gente não sabe é que o sucesso de O Chamado nos EUA não foi uma surpresa, pois trata-se de uma refilmagem de um filme japonês do diretor Hideo Nakata, chamado Ringu, que também fez grande sucesso. Ringu teve uma seqüência simultânea, no Japão, chamada Rasen, que foi um fiasco, e outra mais adiante que ignorava os acontecimentos de Rasen, intitulada Ringu 2. O fracasso se repetiu. O problema de ambas as seqüências é que elas ofereciam explicações pseudo-científicas para os fenômenos sobrenaturais que envolviam a fita. Ou seja, as tais explicações se perdiam tentando explicar justamente a graça do filme original que era o inexplicável.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.