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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Projeto "De Mão em Mão" #3



"Vamos ler mais, galera!!!"

Ontem, terminou o piloto do Projeto "De Mão em Mão" da Secretaria da Cultura da cidade de São Paulo para o qual fiz uma humilde contribuição. Saiba mais sobre o projeto clicando aqui e aqui.

Basicamente, o projeto realiza distribuição gratuita de livros para incentivar a leitura nas pessoas. Diferente de uma biblioteca, não há cadastro ou prazo de devolução. Ou seja, a continuidade do projeto fica diretamente vinculada à cidadania de cada um em devolver o livro em bom estado ou repassá-lo adiante para dar a oportunidade de mais pessoas lerem os livros.

Eu trabalhei no ponto de distribuição do Terminal da Lapa (região da Zona Oeste de São Paulo). O contato direto com o público confere aquele sabor especial para mim de observar as reações de diferentes pessoas em relação ao projeto. Do velhinho desconfiado que não acredita que os livros são gratuitos, passando pelos espertinhos que querem reter os livros para si até os mais cidadãos preocupados com o prazo para devolver o livro o mais rápido possível e assim garantir que outras pessoas possam lê-los também.

Tem também aquele outro lado de conhecer histórias de vidas diferentes. Os personagens são diversos. Há o garoto que vende chicletes para sobreviver e sustenta um lindo sorriso no rosto apesar da triste vida familiar que leva; A bela escritora e colega de trabalho que muitos conhecem apenas a superfície, mas não os acasos que a definem; Os moradores de rua sempre imprevisíveis (um dia, tinha um deles assustando pessoas pelo terminal com um caranguejo encontrado no esgoto!); Os profissionais do terminal com suas própria histórias e opiniões divergentes do que nós estávamos fazendo por ali; Ou até mesmo aqueles sujeitos que - como almas penadas - vagueiam a esmo o dia inteiro pelo terminal pedindo esmola aos transeuntes.

Esta não foi a primeira vez que trabalhei com atendimento ao público e certamente não será a última, pois adoro isso (uma das partes mais legais do trabalho como escritor é o contado direto com seus leitores!). Por que? Oras, o contato com o real é a melhor forma de inspirar-se para criar o que quiser. Uma pintura. Um texto. Ou apenas enxergar com outros olhos a vida que você leva e da qual vive a reclamar.

Mas o projeto não acabou. Ele deve voltar em março. E eu, certamente estarei por lá.

Uma inspiradora semana a todos!!!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Batalha dos Deuses



Capa da antologia

Imagem: http://www.novoseculo.com.br/config/imagens_conteudo/produtos/imagensGRD/GRD_571_Sem%20t%C3%ADtulo.png


A idéia dessa antologia é sensacional: a humanidade criou os deuses a sua imagem e semelhança ou seria o contrário? Se um Deus único assumiu o lugar principal no coração dos homens, para onde foram os grandes deuses do passado?

Em busca de respostas (e diversão), um grupo de autores revisitaram diferentes mitologias para narrar em seus contos a silenciosa guerra pela fé da humanidade.

Obviamente, como toda coletânia de contos, os textos divergem em qualidade, abordagem e público. Ou seja, haverá textos que te tocarão mais que outros. Afinal, a experiência de cada leitor é única.

Todos estão muito bem escritos e somos apresentados a ótimas premissas que são excepcionalmente bem executadas em alguns contos e nem tanto em outros (pelo fato de imaginarmos algo e o autor serguir por caminho completamente diferente, às vezes menos interessanto do que o esperado a princípio).

A impressão nítida de que alguns temas repetem-se pode incomodar, mas é nesse ponto que surgem os diferenciais que revelam os melhores contos. A Menina que Olhava, de Albarus Andreos, foi o conto que mais me arrepiou. A história apenas faz sentido (e revela toda sua relação com a mitologia egípcia) em seu final; O Legado Annunaki, de Márson Alquati, foi o conto que me surpreendeu. Ele narra as origens dos deuses astronautas por meio de liberdades criativas em que o autor habilmente molda determinados fatos históricos (e alguns bíblicos) para contar sua trama; Já o meu conto preferido, sem dúvida, é O Carvalho e o Visco, da autora Simone O. Marques. Nele, a narração em primeira pessoa de um bardo nos revela detalhes da queda dos deuses celtas perante a chegada do Deus único cristão.

Enfim, a primeira antologia de contos da Editora Novo Século e organizada por Juliano Sasseron (aliás, o prefácio de Sasseron é sensacional) é leitura recomendadíssima!!!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Estátuas de Sal



Capa da obra

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiFaUpJ-T4PzgcIkub7-_HTUZW-EDdyYND72VhLwPgqio6MvYUR3r2jmjew8f1hmHyaUUSv5Oz1VbfdK68JxloGKBXv8d4KlJWMKibwg-izUk1tekiOB1YEdwAaji6qsUJYiVoNsdEAN8/s1600/capa.JPG



"Dez anos depois que Deus destruiu São Paulo....". Assim começa a sinopse arrebatadora de um dos melhores livros que li em 2011: Estátuas de Sal de André Cardinali.

O romance de estréia do paulista de Piracicaba André Cardinali narra um suspense que revisita a história de Sodoma e Gomorra. Em um futuro não muito distante, Deus destruiu São Paulo devido aos pecados cometidos por seus habitantes. Todos agora temem um Deus que pode manifestar sua ira novamente a qualquer instante. Nesse novo mundo, conhecemos Alice, uma jovem que decide investigar a morte do pai que a jovem não acredita ter se suicidado. Sua jornada a levará à cidade proibida de São Paulo e à surpreendentes descobertas.

O texto de Cardinali é gostoso de ler e traz ótimas sacadas. Além de belas mensagens sobre o amor, o sentido da vida e a existência de Deus. Para exemplificar o que estou dizendo, segue abaixo o meu trecho preferido:

"Como te disse antes, também estou tentando entender este mundo. E depois de pensar muito comigo mesma sabe o que descobri?! Que sozinha nunca vou descobrir nada! Não importa o quanto eu tente, o que sei é o que sei, nada aumenta isso, nem que eu pesquise, estude todas as ciências. A ciência não responde perguntas desse tipo. Pode avaliar uma lágrima em todas as suas medidas e componentes, mas não se é de alegria ou de tristeza. Pode até descobrir como foi criado o universo, entender o Big Bang, mas não vai responder por que ele foi criado. E eu penso.... Talvez cada um de nós saiba um pequeníssimo pedaço da verdade... Porque eu aprendo com o outro o que é o amor, o que é felicidade ou o que é saudade. Por isso, a solução pra entender a vida pode ser buscar no outro o que não sabemos. Penso eu que esse é o motivo para estarmos todos aqui, porque somos incompletos e precisamos do outro para nos completar. "

A habilidade narrativa de Cardinali fica evidente em diversos momentos que a protagonista segue sozinha em sua jornada. Nesses instantes, não existem diálogos. Somente o leitor e os pensamentos conflitantes da protagonista. Tais passagens poderiam tornar-se enfadonhas e maçantes nas mãos de um escritor menos talentoso. Porém, é nesse ponto que, assim como um escultor que sabe muito bem o que deseja, Cardinali revela toda sua verve.

André Cardinali é um autor do selo Novos Talentos da Literatura Brasileira da Editora Novo Século. Não deixe de conferir. Leitura recomendadíssima!!!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Projeto "De Mão em Mão" 2

Bom dia, pessoal.

Lembram-se do projeto "De Mão em Mão" que comentei aqui no blog?

Então, saíram mais duas reportagens televisivas sobre ele. Uma pela Globo e outra pela Globo News. Dessa vez, não dei entrevista como fiz para o Repórter Brasil da TV Brasil, mas todo o grupo do Terminal da Lapa foi muito bem represetado pela minha amiga Amanda Reznor!










Fui!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Projeto "De Mão em Mão"




Capa de "Missa do Galo e outros contos" de Machado de Assis

Imagem: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/livroamissadogalo_1324495030.jpg



Fala, galera! Tudo bom?

Andei sumido mesmo. Eu sei. Se não bastasse meu trabalho atual e os eventos literários que participo porque gosto e também para divulgar O Poder do Fogo, arranjei um segundo emprego(!).

Sim, eu agora faço parte do projeto "De Mão em Mão", uma iniciativa da Unesp e da Secretaria da Cultura de São Paulo. Trata-se de uma forma de incentivo à leitura por meio da distribuição de livros para empréstimo. Tudo grátis. A pessoa pega um livro, lê e pode devolver ou passar adiante para outra pessoa ler também. O interessante é o livro não ficar parado. Ou seja, sempre dando oportunidade de outra pessoa ler a obra.

Não podia ficar de fora de uma iniciativa tão legal, né? Adorei o convite da minha amiga escritora Amanda Reznor!!! =D

O projeto começou com uma obra que compila alguns contos de Machado de Assis. Para saber mais sobre o projeto, clique aqui.

E, abaixo, confira uma matéria sobre o projeto produzida para o programa Repórter Brasil da TV Brasil!


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Anjo Negro



A capa da obra é bem chamativa

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSBl-TQSR7Kr-uK_zuwJLlgKEWXEeY45eJSzBHoY0W28bTtYXOCgBZua-zG6tErd0gPWh6VMZVoNU2K52W4Qbpf1McP0qOl03SEh74mpJ5Gewt4XYj8JGVOA9e1xmukaS9Fiiy8QSUHPX0/s1600/Anjo+Negro.jpg

Londres. Século XVII. Uma anja se apaixona por um médico e do fruto desse amor proibido nasce Darian. Quando chega a adolescência, o rapaz descobre que possui a visão dos dois mundos. Ele pode ver tanto os seres humanos quanto os espíritos que vagam perdidos por aí. Darian também fica sabendo que sua mãe fora castigada a condição de ser humana por ter caído de amores por um ser humano. Porém, ela continuava enxergando almas que a atormentavam. Perturbada, ela cometeu suicídio. O que é um terrível crime espiritual. Por isso, ela foi condenada por toda a eternidade a viver no Vale dos Suicidas, um lugar onde nenhum espírito encontra a paz e continuamente revive o momento de sua morte.

Darian recebe então a seguinte proposta de um Arcanjo: recolher em uma caixa angelical 10 mil almas perdidas (que queiram ser salvas) para aliviar o sofrimento de sua mãe. Por outro lado, ele recebe uma contra-proposta de um demônio: utilizar as 10 mil almas em troca da liberdade da alma de sua mãe. Esse dilema é o ponto de partida de Anjo Negro, primeiro romance da mineira Mallerey Cálgara pelo Selo Novos Talentos da Literatura Brasileira da Editora Novo Século.

O texto é ágil e rápido porque a autora não emprega um vocabulário rebuscado e por ser curto (pouco mais de 200 páginas). Acreditava que o tamanho da obra fosse algo a ajudar no trabalho de revisão, mas pelo contrário, é possível detectar alguns erros ortográficos e gramaticais que passaram despercebidos. Nada que atrapalhe a leitura, mas que incomoda um pouco.

A autora também utiliza um recuso divertido que alterna o ponto de vista do narrador. Primeira pessoa x terceira pessoa. Isso é muito legal quando utilizado com cuidado e discretamente. Por exemplo, de um capítulo para outro. Só acho que isso possa confundir o leitor quando ocorre de um parágrafo para outro, pois a mudança do ponto de vista do narrador é muito brusca. Isso desvia a atenção do leitor para a forma como o texto está sendo escrita em detrimento da narrativa que é o mais importante.

Em relação a trama, a questão do amor entre mãe e filho me lembrou um pouco o primeiro volume da série Percy Jackson e os Olimpianos, O Ladrão de Raios, em que Percy precisa resgatar sua mãe de Hades, o deus do mundo dos mortos da rica Mitologia Grega. O que me agrada porque a diferencia de um tradicional amor platônico entre um casal.

Após o treinamento de Darian para enfrentar demônios e encontrar as almas que deve resgatar, a narrativa torna-se "episódica", ou seja, em cada capítulo apresenta um caso que ele investiga com o auxílio de sua anja da guarda, Hadji. Como em uma série de teve ou episódio de algum desenho animado. Essa parte do livro é interessante porque por meio das histórias das almas perdidas belas mensagens são transmitidas. É claro que a qualidade de cada história varia. Em algumas tramas ficamos surpresos com os enredoss. Já em outras a resolução de um problema a princípio complexo é deveras simplista. Resumindo-se a uma conversa entre Darian e a alma que está causando problemas.

Há uma importante ressalva a fazer: apesar de nos ser dito que a história de Darian se passa na Londres do século XVII anos após a Peste Negra, ela poderia se passar nos dias de hoje e em qualquer outro lugar do mundo. Por dois motivos: 1) O linguajar dos personagens não é o mesmo de pessoas que viveram naquela época. Todos os personagens falam iguais a pessoas que vivem nos dias de hoje. Inclusive falando gírias. 2) Não há descrições de Londres e nem todos os personagens possuem nomes em inglês (não que isso seja regra), mas isso permite que possamos imaginar a história se passando nos anos 2000 em uma grande cidade do Brasil, por exemplo.

Por outro lado, toda a descrição que autora não fez da Londres do século XVII, ela utiliza para dar vida ao Vale dos Suicidas e ao inferno imaginado por ela. Tal lugar mescla religião e mitologia grega muito bem. Os últimos capítulos do livro são extremamente bem descritos e o inferno torna-se muito palpável para nós. Em especial, a sensação desoladora que o lugar transmite ao protagonista.

Sem spoilers, basta dizer que o final do livro é surpreendente e deixa um tremendo gancho para uma continuação, pois diversas sub-tramas ficam sem finais e a última cena do livro pára na metade. O que pode frustar alguns, para outros (o meu caso) deixa a imaginação livre pra interpretar de diversas formas o que aconteceu no fim do livro.

Fica aí uma sugestão de literatura fantástica 100% nacional!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Batalha do Apocalipse




Capa da obra

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiisY0qV2anMf6S2ljN3qOoIBl2L1VsV0zAFSNnii8RGSY4VTIIol5aFvwLG1YW26eGRlsUCxPpFMFVSdJCTltJaeUZVZouIMtAcxoN9ID643HSj8BzSD9bAJVOr9lr9ALm8Mk9QMYYLkED/s1600/a-batalha-do-apocalipse1.jpg


Está aí um livro excelente e recomendadíssimo que, além de nos garantir horas de entretenimento com belas histórias e cativantes personagens, é 100% nacional!

A premissa é genial: o mundo foi criado em 6 dias e Deus tirou o sétimo dia para descansar. Isso é o que sabemos. O que não sabemos é que cada dia de Deus corresponde a milhares de anos para nós meros mortais. Então, ainda estamos vivendo o sétimo dia de Deus. Ele esta dormindo e, em seu lugar, no comando do mundo, estão os arcanjos, a elite dos anjos.

O problema é que Miguel, o líder dos arcanjos, nutre um ódio mortal pela humanidade. Isso porque ele tem ciúmes do amor que Deus nutre por sua criação e a dádiva que lhes conferiu: o livre arbítrio. Assim, Miguel e seus asseclas estão por trás de todos as grandes catástrofes sofridas pela humanidade. Do grande dilúvio até a destruição de Sodoma.

Entretanto, nem todos os anjos são partidários dessa política belicionista de Miguel contra a humanidade. Ablon, um querubim (a casta dos anjos guerreiros), liderou uma revolta contra o senhor dos arcanjos, mas foi traído por confiar em um certo Lúcifer. Assim, ele e seus companheiros renegados foram condenados a viver presos na Terra até o fim dos dias. Eis que o Apocalipse se aproxima e Ablon terá sua revanche contra Miguel.

A Batalha do Apocalipse é um compêndio de histórias por narrar as aventuras de Ablon em suas andanças pelo nosso mundo do princípio dos tempos até o fim do mundo. Desta forma, o livro é estruturado em duas linhas de tempo. O presente que narra a aproximação da grande batalha do fim dos tempos e os flashbacks que narram a visita de Ablon a Torre de Babel, suas viagens na época que um certo Jesus Cristo nasceu em Jerusalém e o que ele fazia durante a Idade Média.

É como se lêssemos diveros livros em um. Apenas a história de Babel possui mais de 100 páginas, por exemplo. O tomo completo soma quase 600 páginas. Mas cada página vale o esforço de enfrentar esse calhamaço.

O interessante da estrutura é que cada flashback permite uma história com vilões próprios e respectivos clímaxes que nos preparam para o final "bíblico". Além, é claro, de nos permitir compreender os protagonistas e todas as suas atitudes (consequências de suas vivências anteriores). Em especial o belo relacionamento de Shamira e Ablon que vai muito além de uma paixão juvenil ou amor platônico. Está mais para uma cumplicidade de companheiros antigos (o que é verdade) que vivenciaram juntos os grandes momentos da história.

Vale ressaltar o evidente trabalho de pesquisa do autor para recriar a ancestral Muralha da China, os hábitos de um monastério inglês medieval ou a Jerusalém da época de Cristo.

Algumas idéias narrativas não são exatamente originais. São claros os ecos ou influências de certos filmes, livros e até desenhos animados ao longo da obra. Mas todas as abordagens do autor para velhas temáticas (em especial o tema dos anjos) são inovadoras. Algo que será lido por muitas gerações.

O belo final ainda é filosófico e nos faz refletir por muito tempo sobre nossas atitudes durante nossa breve estadia neste grande planeta azul. Para ser apreciado e reconhecido pelo tanto que agrega a literatura fantástica nacional.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Percy Jackson & Os Olimpianos



As capas dos primeiros quatro volumes

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgrHT_LGS1V3Rk_IsJg9lqqTbiRGmtZPbqKGS_xM52hUAGo7bul1w2Vt_OaKQ1vQPvLs7WeSvlW_8W5-wni8UP-UAeweXwMWxJki-GJuV2RZuzxr3e5kuVZHzJI4um9wVi5g7JNOb821I4/s1600/PJ+01.gif


Você já ouviu falar em Percy Jackson? Lembro-me que a primeira vez que eu tomei conhecimento da obra foi quando estava xerentando alguns livros legais em uma livraria. Então um tomo de capa verde com um garoto portando uma espada e caminhando dentro do mar rumo a Nova Iorque me chamou a atenção. O título então era ainda mais arrebatador "O Ladrão de Raios".

Então, devorei a sinopse... um garoto de 12 anos que vive nos dias atuais descobre que é filho do deus do mar, Poseidon, e que todos os lendários deuses da Mitologia Grega existem de verdade e caminham entre nós. Uau! Eu adoro Mitologia Grega. Mas e você? Já ouviu falar? Não? Eu explico.

Percy Jackson & Os Olimpianos é uma coleção de 5 livros escritos por Rick Riordan. Na sequência de leitura, os livros são O Ladrão de Raios, O Mar dos Monstros, A Maldição do Titã, A Batalha do Labirinto e O Último Olimpiano. Essa série narra a saga de um adolescente que descobre ser um semideus. Ou seja, filho de uma mortal com um deus da Mitologia Grega. No contexto dos livros, todas as aquelas histórias míticas são reais e até o Monte Olimpo existe e ele fica em Nova Iorque!!!

Os antigos Titãs, derrotados no passado por Zeus e seus irmãos, estão tramando para retomar o poder e conquistar o mundo. No centro de tudo, está Percy Jackson, protagonista de uma profecia que diz que quando ele completar 16 anos ele terá que fazer uma escolha...que determinará o destino do mundo!

A série é um achado especialmente pelo fato de contar com a rica Mitologia Grega como pano de fundo. Outro charme da série é a narração em primeira pessoa. O protagonista faz comentários muito engraçados e pertinentes que não levam tão a sério aquele universo fantasioso. Mas nos permite entender seus anseios e temores pelas responsabilidades que carrega.

Acredito que o único porém dessa série é sua inegável semelhança com Harry Potter. Assim como a saga do bruxo de Hogwarts, o protagonista é alguém especial, que não quer ser o herói da história e geralmente é mal compreendido. Seu melhor amigo é engraçado e sua melhor amiga é uma garota intelingente.

Isso sem contar que existe na história um acampamento que treina semideuses. Mais ou menos como uma escola de bruxaria que existe na Escócia, entende?...rs

Mas as semelhanças param por aí. Essa obra merece ser lida mesmo porque é algo descontraído e de fácil leitura. Para os amantes das antigas histórias gregas, achar as referências a diversos mitos e personagens é uma brincadeira a parte. Rick Riordan sabe bem utilizar os típicos elementos de um mito grego. Então, existem jornadas, profecias, paixões e tudo o que torna aqueles antigos contos em algo tão atual. Outro mérito da série é atrais jovens e leitores mais leigos para a Mitologia Grega que sempre será um tesouro da literatura.

Existe até mesmo um filme baseado no primeiro livro que é divertido, mas não é muito empolgante. Chama-se Percy Jackson e O Ladrão de Raios e foi dirigio pelo Chris Columbus, o diretor dos dois primeiros Harry Potter (olha a semelhança ai de novo!).

Ele obviamente adapta o livro e toma certas liberdades criativas. Algumas agregam mais a obra e outras perdem elementos divertidos. Por exemplo, no filme não entraram os 2 personagens mais legais do primeiro livro que são o deus da guerra Ares e sua filha Clarisse, a eterna rival do Percy.

Enfim, fica aqui a dica para uma obra literária muito especial.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Breve Romance de Sonho



Para alguém com idéias tão ousadas, Fridolin não vai muito longe

Image: http://biblioteca.folha.com.br/1/images/livros-26-140x230.gif


Sentir ciúmes é uma droga. O ciúme é um dos sentimentos mais nocivos ao ser humano. Ele pode se manifestar de várias maneiras (ciúmes de um objeto, pessoa, acontecimento, etc). Pode tornar-se algo mais destrutivo como a inveja ou até mesmo o ódio. E o pior de tudo: ele nubla o raciocínio. Um ser humano ciumento pode ser alguém extremamente perigoso. Tanto para os que estão a sua volta quanto para si próprio.

Foi esse o sentimento que o escritor austríaco Arthur Schnitzler atribuiu ao seu personagem Fridolin para que este se lançasse em uma aventura nublada como um sonho. O ciúme é o estopim de uma série de questionamentos sobre a vida conjugal da burguesia da década de 1920 e as motivações por traz da infidelidade.

Em Breve Romance de Sonho, o Dr. Fridolin tem uma vida próspera com a esposa Albertine e sua filha. Um dia, toda a certeza que possui sobre sua vida (e o amor que sua mulher sente por ele) é abalada com a confissão da mulher a respeito de uma antiga fantasia sexual. Dilacerado pelo ciúme, Fridolin tem de atender a um chamado no meio da madrugada. Ao encontrar o paciente que deveria prestar socorro sem vida, Fridolin não volta para casa. A morte do paciente o faz questionar-se sobre sua vida, as razões de levar a vida que leva e o direito que possui ou não de trair a mulher já que esta o traía em pensamento.

Daí em diante, Fridolin flerta com todas as mulheres que atravessam seu caminho, desde a mais inocente das garotas até a mais profissional das prostitutas, até envolver-se em uma estranha cerimônia que une sexo e morte de forma angustiante.

Em uma idéia: Fridolin é um covarde. Ele representa toda uma classe da sociedade que por mais que conteste a vida que possui não é capaz de deixá-la para trás devido aos privilégios dos quais deveria abrir mão. Fridolin não é apenas covarde como também tolo. Ludibriado por um sentimento rasteiro como o ciúme, ele atribui a mulher crimes muito maiores do que ela cometeu na realidade.

Fica-se na dúvida se ele fez isso para justificar os seus atos ou porque não gosta mais da mulher. Ou ainda – e mais provável – por não agüentar mais a vida monótona que leva. Uma vida sem sentido e vivida dentro de uma estrutura que parece não mudar nunca, assim como não mudam aqueles que vivem sob sua sombra.

Para alguém com idéias tão ousadas, Fridolin não vai muito longe. Apesar das aventuras em que se envolve, ele jamais ultrapassa uma certa linha imaginária da moralidade. Para ele, sempre há um certo e um errado, a atitude mais adequada a tomar ou uma ação da qual não pode ser protagonista devido a seu status. Por isso, Fridolin é passivo diante de tudo que acontece ao seu redor. E de tão covarde, sem nem mesmo ter cometido pecados, é capaz de pedir perdão.

Ao fim da curta narrativa, fica claro que Albertine é muito mais corajosa e verdadeira que o marido: mesmo que suas aventuras se dêem em sonhos ou fantasias, ela os divide com o marido e os vive (mesmo que na imaginação) mais intensamente que Fridolin em suas frustrantes investidas para fugir de uma estrutura da qual não consegue (ou não quer) escapar.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eros e Civilização



Obra densa esclarece Freud para o grande público

Imagem: http://www.livrariasaraiva.com.br/imagem/imagem.dll?tam=2&pro_id=354068&PIM_Id=20124



O filósofo Herbert Marcuse nasceu na Alemanha e radicou-se nos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Formou-se pelas Universidades de Berlim e Friburgo, foi conferencista em Harvard e Colúmbia. Professor de Política na Universidade de Brandeis e Professor de Filosofia na Universidade da Califórnia. Marcuse também é autor de Ideologia da Sociedade Industrial, Contra-Revolução e Revolta e Idéias sobre uma Teoria Crítica da Sociedade, entre outras obras.

Em Eros e Civilização, o autor baseia-se na teoria freudiana de que vivemos numa sociedade que reprime os instintos primários de seus indivíduos para dissertar sobre esta civilização. A livre satisfação destes instintos não permitiria o progresso de uma sociedade civilizada. Marcuse acredita que essa repressão cria as precondições para uma eventual abolição deste sistema e transformação da sociedade.

Um leitor que não tenha lido Freud não terá muitos problemas com a obra, pois sua primeira parte, intitulada “Sob o domínio do princípio de realidade”, busca apresentar os conceitos básicos de sua teoria. Este trecho da obra apresenta os mecanismos de funcionamento da psique humana segundo a teoria freudiana: o Id, o inconsciente, onde nossas fantasias se fixam e os valores impostos pela sociedade de repressão não possuem efeito; o Ego, a parte de nossa psique que conscientemente interpreta o mundo externo e o Superego, a ponte entre o mundo externo e o Ego, o local de nossa mente onde repousam valores morais que aprendemos desde a infância.

A primeira parte explana como se dá a substituição do princípio de prazer (satisfação imediata, prazer, júbilo, receptividade, ausência de repressão) pelo princípio de realidade (satisfação adiada, restrição do prazer, esforço, produtividade, segurança) imposta a todo indivíduo desta sociedade de repressão. E explica os dois planos em que a análise do aparelho mental repressivo de Freud possui efeito: o Ontogenético (a origem do indivíduo reprimido) e o Filogenético (a origem da civilização repressiva).

Segundo Freud, a civilização primitiva atendia seus instintos primários de imediato e isso não permitia um progresso. Uma evolução se iniciou quando o indivíduo deixou de lado a satisfação imediata para praticar atividades menos prazerosas, mas necessárias para a sociedade. Foi o início de uma substituição das vontades particulares pelas necessidades universais. Desde então, utilizamos nossas forças libidinais para a efetuação de outras atividades. Mas, particularmente, não temos a necessidade de trabalhar. A labuta é importante para a sociedade, não para o indivíduo. Para este, o trabalho apenas o faz sentir-se mais valiosos, cumpridor de sua função numa enorme engrenagem.

Na segunda parte da obra, intitulada “Para além do princípio de realidade”, o autor busca apresentar a hipótese de uma sociedade não-repressiva. Para atingir tal intento, ele busca na literatura os heróis culturais, personagens como Orfeu e Narciso, que lutaram contra essa renúncia de suas necessidades primárias. Apresenta as forças mentais que, segundo Freud, são independentes do princípio de realidade por sua falta de praticidade no mundo real: a fantasia e a dimensão estética, que se manifestam através da arte, por exemplo. E mantém-se vivas em nosso inconsciente como uma válvula de escape.

Porém, Marcuse acredita que uma civilização não-repressiva só seria viável quando a sociedade atingisse um alto grau de maturidade, necessário para reavaliarmos as relações de trabalho e entre os indivíduos que seriam completamente alteradas. Uma civilização assim, nos dias de hoje, seria uma barbárie. Além de que, segundo Freud, “a natureza não conhece o verdadeiro prazer, mas a satisfação de carências”. Parece necessário ao ser humano um obstáculo para “impelir a maré da libido ao máximo”.

Ao final de Eros e Civilização, Marcuse apresenta um epílogo, onde critica os revisionistas neofreudianos afirmando que algumas de suas propostas são errôneas e destoam com a teoria de Freud.

Eros e Civilização fala sobre o desenvolvimento da civilização através da análise de comportamento da sociedade e de seus indivíduos. Sem dúvida uma leitura interessante e recomendada, porém, tratando-se de um assunto muito específico, a psicanálise, a obra pode não agradar aos leitores pouco interessados pela área.

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999. 232 p.

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica: a prática de fichamentos, resumos e resenhas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Senhor das Moscas



Uma maneira totalmente peculiar de chegar à adolescência

Imagem: http://www.sebodomessias.com.br/loja/imagens/produtos/produtos/78243_741.jpg


Infância conturbada. Essa seria uma possível manchete de jornais que noticiassem a história que o romance de William Golding nos conta em O Senhor das Moscas, se ela fosse verídica.

Um avião cai em uma ilha e os únicos sobreviventes são um grupo de garotos. Sem adultos, sem regras, sem autoridades, a diversão está garantida. Mas quando a fome e o receio de jamais retornarem para casa os acomete, o grupo se reúne em assembléia que elege, democraticamente, um líder. Tarefas são distribuídas e enquanto uns caçam comida outros erguem barracas. Até uma fogueira é acesa no ponto mais alto da ilha para servir como sinalização para um resgate.

Porém, com o passar do tempo, com o insucesso da fogueira sinalizadora e com a distância da civilização, o ensolarado paraíso torna-se um inferno sombrio assim como a densa noite quando ela cai. Lentamente, os garotos tornam-se mais selvagens e a ilha passa a afetar cada um com maior ou menor intensidade.

As disputas pelo poder não tardam a se iniciar, os gritos se intensificam e mortes começam a acontecer. Não bastasse isso, os jovens suspeitam da existência de um misterioso monstro na ilha que poderia pôr fim a vida deles bem antes de algum navio despontar no horizonte.

Essa obra de William Golding foi publicada em 1954. Mas em nada ela é datada. Golding conseguiu dar a seu texto um ar atemporal utilizando-se de dois recursos simples: a trama já começa na ilha e é carregada de simbolismos. Desta maneira, não sabemos em que ano (ou seriam anos?) que a história se passa ou quanto tempo ela dura. Porém, diálogos inteligentes nos fornecem pistas preciosas. E a personalidade dos personagens e suas atitudes refletem diversos aspectos de nossa sociedade.

Outra característica positiva do texto de Golding é a versatilidade do autor para nos ludibriar. A princípio, fica fácil imaginar um grupo de garotos perdidos em uma ilha deserta. Mas, não muito adiante, isso já não fica tão claro assim. As ações dos personagens tornam-se mais cruéis e volta meia o leitor há de se perguntar: uma criança seria capaz de fazer isso? É fácil esquecer dos garotos de 12 anos que reuniam-se em assembléias para decidir o que fazer depois da metade do livro. A partir daí, a inocência e o senso de responsabilidade para com seus semelhantes dá lugar a cobiça, a selvageria e ao egoísmo.

O Senhor das Moscas é uma obra com muitas virtudes e que deixa margem para múltiplas interpretações (teriam os garotos morrido e ido para o inferno para pagar seus pecados?). Além disso, possui um texto gostoso de ler e personagens fortes e carismáticos. Por essas e outras, o tomo possui um valor que merece ser redescoberto por futuras gerações.

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Personalidade



Criar a personalidade de um personagem é sempre um desafio

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Após falar sobre Criatividade, A Organização das Idéias, O Repertório e a Linguagem Entrecortada e os Diálogos, chegamos a criação de Personalidade.

Quando narramos uma história, ela é recheada de personagens com diversas características. As físicas são importantes, mas não tanto quanto as psicológicas. Afinal, serão as segundas que irão determinar como cada personagem irá agir em situações diversas.

Muitos autores recomendam que criemos uma ficha de cada personagem. Eu também recomendo. Isso é imprescindível.

Para criar uma personalidade você pode se basear em pessoas que conhece e também se colocando no lugar delas. Por ter uma formação em Jornalismo utilizo muito esta segunda técnica. Eu me coloco no lugar de determinado alguém para imaginar como ele ou ela reagiria diante de uma situação hipotética.

Por exemplo, se eu fosse uma garota tímida e pobre que vive em uma cidade do interior sem perspectivas profissionais e um dia descobrisse que é dona de uma gigantesca fortuna. Como eu reagiria a isso? Eu guardaria o dinheiro? O gastaria sem pensar? Essa fortuna me afastaria de meus amigos? Claro sempre tendo em mente o tipo de criação que teve. O porquê de ela possuir as características que tem. O que a levou a ser tímida, por exemplo?

Trata-se de um grande exercício de imaginação, mas com fundamentos. Não dá para crer que um personagem de 10 anos fará deduções brilhantes dignas de um Sherlock Holmes por mais inteligente que seja. Especialmente, se as deduções dependessem de conhecimentos que não são comuns a uma criança de 10 anos. Por exemplo, algo que envolva drogas ou sexo.



Treine seu poder de observação para criar personalidades mais próximas do real

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Tudo tem que estar dentro de um contexto que justifique aquelas ações. Justifique reações diversas por parte de um mesmo personagem.

Sempre falo e acredito que exercitar a habilidade da observação é fundamental para qualquer escritor. Fique mais atento ao seu redor. Repare em seus amigos, como eles caminham e se vestem. Como e o que dizem. Como agem quando estão em grupo ou sozinhos. Observe as pessoas estranhas a você na rua.

E, claro, assista a muitos filmes e leia bastante. Com o tempo, você mesmo irá se tornar um crítico mediano e começará a notar quando determinada atuação de um ator ou ação descrita por um autor em um livro não condiz com a personalidade de um personagem. Será frustrante descobrir que isso ocorre bem mais do que gostaríamos. Mas não iremos cometer o mesmo erro, não é verdade?

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diálogos



Os diálogos são vitais em qualquer texto narrativo Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiWfkE1l95BI3fJMMWnVPOagReAevO0nilG_A_k-t729ak7l2csuoPbxoNxlLK89iTq_-izk1JebhnFXDNNQsMr3eoJfLhDw3CkkmxL1dG9knUK5nuGyVGfx-mJhhnfsqv9HWQAfNpabNCH/s400/dialogo.jpg


Após falar sobre Criatividade, A Organização das Idéias, O Repertório e a Linguagem Entrecortada, hoje é a vez dos diálogos.

Os diálogos são de suma importância para qualquer tipo de história narrativa. Afinal, nós somos o que nós também falamos. Talvez não tanto quanto o que fazemos ou comemos, mas o que dizemos tem um peso enorme sobre a impressão que passamos aos que estão ao nosso redor.

Ao criar um diálogo é necessário ter em mente as características do personagem que irá proferir determinada fala. Uma mesma frase pode ser dita por um personagem tímido e outro extrovertido. Mas a forma de falar e até mesmo a entonação será diferente. Como em um texto não há a voz falada, é necessário descrever elementos que remetam a isso. Um personagem tímido falará mais baixo (sussurrando, por exemplo) do que um personagem mais extrovertido.

Também é importante lembrar que as maneiras de falar serão distintas também. Um personagem mais erudito pode ter um vocabulário mais requintado. Um personagem desprovido de estudos poderá cometer erros de gramática e concordância.



Além de dar vida, é preciso dar voz aos nossos personagens

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Além de tudo isso, ainda existe o meio onde tudo ocorre. Um mesmo personagem não fala da mesma forma no ambiente de trabalho e na balada. Enquanto no primeiro, precisa ser mais "sério e profissional", no segundo caso, estará mais descontraído.

Um executivo dificilmente utilizará gírias, mas se o fizer certamente será em bem menos quantidade e frequência do que um adolescente da perifería.

É engraçado ficar utilizando estereótipos (figuras ou arquétipos que construímos do mundo real), mas funcionam para nos remeter a imagem de certas figuras comuns em nossa sociedade. A partir delas, podemos criar os personagens divertidos e diferenciados que chamem atenção em nossas histórias.

Pegue o exemplo de uma avó muito boazinha. À mente de muita gente virá a imagem de uma Vovó Benta qualquer. Aquela senhora de terceira idade que faz tudo por seus netos prepara os pratos mais deliciosos que poderíamos desejar, mas que dificilmente chamaríamos para ir a balada com a gente. A partir desta idéia pode surgir o diferencial, o inovador. Imagine a avó que sempre leva a netinha ao tatuador e também se tatua. Ou aquela outra senhora que prefere praticar esportes radicais do que ficar em casa fazendo diferentes receitas de tortas de bolo.

Enfim, escrever é sempre um exercício de imaginação. Quando damos vida a alguns personagens, nós temos que lhe dar vozes também. Então, que seja da forma mais adequada.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As Brumas de Avalon



Morgana e a Excalibur

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Por falta de tempo, atenção ou até mesmo vontade deixamos para depois o contato com alguma obra. Seja um filme ou livro recomendados por amigos. Esse foi o caso de As Brumas de Avalon, da autora Marion Zimmer Bradley, que eu infelizmente posterguei sua leitura por anos. Grande erro da minha parte.

As Brumas de Avalon é uma quatrilogia que retrata a saga do Rei Arthur de uma forma inovadora: sob o ponto de vista das mulheres que fizeram parte da vida do lendário rei. Desta forma, o próprio Arthur é um personagem coadjuvante em sua saga.

Assim, Morgana, a irmã de Arthur, é quem protagoniza a série literária. Ela é uma feiticeira da ilha de Avalon atormentada por visões que a assombram desde a infância. Avalon é uma ilha mítica onde surgiu uma milenar religião pagã que é posta em xeque com o avanço do cristianismo por toda a Bretanha. Viviane, a líder de Avalon, tutora de Morgana e a personagem mais impressionante de toda a saga, mostra-se capaz de absolutamente tudo para salvar a religião de Avalon do esquecimento. Até mesmo utilizar os mais insuspeitos subterfúgios para manipular os demais personagens a agirem como ela deseja.

Mas também somos apresentados às vozes de Igraine, mãe do rei; Guinevere, sua esposa; Morgause, sua ambicio tia, o que torna toda a história ainda mais rica e complexa. Cada uma delas possui seus próprios interesses e formas diferentes de envolver Arthur para que este atenda a seus caprichos.

Mais do que uma novela, Marion dá voz as mulheres tão reprimidas em toda a história da humanidade. Com sua forma de narração ela consegue nos brindar com toda a complexidade que envolve os atos femininos retratados na obra. E, além narrar as intrigas e conspirações que maculam Camelot, Marion também retrata com muita habilidade os panos de fundos religiosos e políticos que dão ainda mais vitalidade e veracidade ao seu enredo.



Imagem da versão televisiva da obra

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Ela estabelece um contexto em que não há certo e errado, mas apenas visões diferentes sobre a vida. Devido às maquinações de Viviane, a Senhora do Lago, Arthur é levado ao trono apoiado por Avalon. Entretanto, o rei se casa com uma fervorosa católica, Guinevere, que insiste em instituir o catolicismo como a religião oficial da Bretanha e banir os rituais pagãos da religião de Avalon que Arthur jurou resguardar.

São tantos meandros e personagens interessantes e bem explorados que fica até mesmo complicado escrever uma resenha sobre o assunto. As temáticas também são diversas, há desde paixões proibidas (segundo preceitos católicos), passando por ousadas cenas de sexo, até abordagens do homossexualismo (que não é condenado pela religião de Avalon).

Por sua grandiosidade e riqueza de detalhes para nos fazer mergular em um universo de magias e feitos grandiosos totalmente instigado por paixões e crenças pessoais, fica aqui o meu convite para você também conhecer esta maravilhosa obra.

As Brumas de Avalon também possui uma versão televisiva (na verdade, um filme para tv que você encontra em uma versão de mais de 3 horas de duração em DVD) que obviamente não possui o mesmo charme da versão em papel. Mas que, por outro lado, nos apresenta atuações competentes e uma trilha sonora arrebatadora.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Jornada do Herói



Capa do livro O Herói de Mil Faces

Imagem: http://nalu.blog.br/imagens/livros/heroidemilfacesp.jpg


Sabe quando te perguntam sobre um livro inesquecível que você já leu? Quando isso acontece comigo, sempre vem a minha mente O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Não se trata de um romance, mas de um estudo incrível que mudou minha forma de ver, ler e me relacionar com obras de fantasia que sempre gostei de ler e leria mais tarde. Também foi uma forte influência na produção de A Aprendiza de Elementar.

Abaixo eu explico o porquê dessa minha "adoração" toda utilizando alguns trechos que um antigo trabalho que elaborei para minha faculdade de Jornalismo.

O estudioso em mitologias Joseph Campbell acredita que exista um padrão que permeia toda obra fantasiosa de diferentes culturas. Não importa a origem da história, ela apresenta muito mais semelhanças do que diferenças, nos indicando que todas essas jornadas mitológicas nos remetem às mesmas informações. Ele até utiliza uma expressão dos antigos Vedas: "A verdade é uma só; os sábios se referem a ela por vários nomes."

Em seu livro, O Herói de Mil Faces, Campbell apresenta um estudo grandioso a respeito da jornada do herói mitológico. Ele até esquematiza um padrão para essas aventuras que aparecem em diversas religiões e mitologias. Essas semelhanças estão presentes nas histórias de líderes religiosos como Jesus e Buda e heróis mitológicos como Teseu, Prometeu e vários outros.

Segundo Joseph Campbell, a jornada do herói mitológico pode ser resumida da seguinte maneira:

"O herói mitológico, saindo de sua cabana ou castelo cotidianos, é atraído, levado ou se dirige voluntariamente para o limiar da aventura. Ali, encontra uma presença sombria que guarda a passagem. O herói pode derrotar essa força, assim como pode fazer um acordo com ela, e penetrar com a vida no reino das trevas (batalha com o irmão, batalha com o dragão; oferenda, encantamento).

Além do limiar, então, o herói inicia uma jornada por um mundo de forças desconhecidas e, não obstante, estranhamente íntimas, algumas das quais o ameaçam fortemente (provas), ao passo que outras lhe oferecem uma ajuda mágica (auxiliares). Quando chega ao nadir da jornada mitológica, o herói passa pela suprema aprovação e obtém sua recompensa. Seu triunfo pode ser representado pela união sexual com a deusa-mãe (casamento sagrado), pelo reconhecimento por parte do pai criador (sintonia com o pai), pela sua própria divinização (apoteose) ou, mais uma vez - se as forças se tiverem mantido hostis a ele -, pelo roubo, por parte do herói, da benção que ele foi buscar (rapto da noiva, roubo do fogo); intrinsecamente, trata-se de uma expansão da consciência e, por conseguinte, do ser (iluminação, transfiguração, libertação).

O trabalho final é o do retorno. Se as forças abençoarem o herói, ele retorna sob sua proteção (emissário); se não for esse o caso, ele empreende uma fuga e é perseguido (fuga de transformação, fuga de obstáculos). No limiar de retorno, as forças transcendentais devem ficar para trás; o herói reemerge do reino do terror (retorno, ressurreição). A benção que trás consigo restaura o mundo (elixir)".






O autor Joseph Campbell

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Segundo Joseph Campbell, a jornada do herói se revela em três etapas: a partida, a iniciação e o retorno.

A partida

Nesta etapa, o herói recebe o chamado da aventura. Aqui também é mostrado como é o cotidiano do personagem e como se dá a quebra desta rotina. O herói também pode receber ajudas sobrenaturais e amuletos que o auxiliem em sua jornada.

A iniciação

Nesta fase da jornada, o herói é continuamente posto à prova. É reconhecido pelo pai ou se junta a ele. Ele também enfrenta um dragão simbólico, ultrapassa o medo e se torna quase divino. O herói é recompensado com a última dádiva, o objeto de sua busca.

O retorno

Neste estágio final, o herói é auxiliado por forças mágicas e retoma para o mundo onde a aventura se iniciou. Pode ter dificuldades em se readaptar e, muitas vezes é mal compreendido pelas pessoas que reencontra no mundo de onde partiu.

O grande barato de ler este livro e compreender a jornada do herói é justamente encontrar posteriormente estes elementos presentes em diversas histórias de fantasia. Inclusive em A Aprendiza de Elementar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Ilha do Tesouro

Parte 1: O autor


“Não desejem que eu morra como um cão, sem ter visto
e experimentado tudo que há para conhecer.”

Robert Louis Stevenson (1850 - 1894)

Imagem: http://www.ukoln.ac.uk/services/treasure/images/robert.gif


O espírito desbravador e interessado de Robert Louis Stevenson pelo mundo a sua volta foi transmitido para os seus diversos personagens e sob diferentes aspectos. Nascido em 13 de novembro de 1850, em Edimburgo, capital da Escócia, Robert Louis herdou de sua mãe uma saúde delicada.

Esse contratempo o obrigava a interromper freqüentemente os estudos para passar longos períodos em localidades climáticas inglesas e estrangeiras, o que fazia seguindo instruções médicas.

O que poderia parecer um fardo foi um embrião riquíssimo de idéias para o jovem Louis – que adorava viajar – e que a cada nova empreitada ia para lugares diferentes onde vivia as mais diversas experiências.

Embora possuísse complicados e constantes problemas de saúde, não era isso que afetava sua produção intelectual. Stevenson é um dos escritores com uma das produções mais vastas, tanto em quantidade quanto em diversidade.

Tudo parecia lhe interessar. Gostava de aventuras, biografias, ensaios políticos, etc. E, apesar de escrever histórias com elementos fantásticos e sobrenaturais, seus personagens sempre eram dissecados psicologicamente, sendo eles humanos ou não.

Entre suas obras mais conhecidas estão A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro, Will do Moinho, Mil e uma noites modernas, Markheim, Olallá, A flecha negra, Janet do pescoço torcido, O homem que era Quinta-feira e Cristina (um romance inacabado que é considerado como sua provável obra-prima).

Parte 1: A obra




A capa da versão da Martin Claret

Imagem: http://fabiompalves.files.wordpress.com/2010/02/a-ilha-do-tesouro-robert-louis-stevenson.jpg


“Homem ao mar!” ou “com mil trovões!” são exclamações típicas de piratas. Temidos por navios mercantes e procurados por oficiais da lei, os corsários do mar sempre exerceram um fascínio todo especial por meio da literatura. Uma das obras mais conhecidas, clássicas e, o mais importante, melhores com esta temática é A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson.

Inspirado por suas viagens pelo globo, o autor deu vida a uma aventura pelos mares onde une “uma notável capacidade de análise psicológica dos personagens” a cenas bem construídas de ação e drama.

O romance começa quando o jovem Jim Hawkins encontra um mapa que indica a localização de um tesouro escondido em uma distante ilha. Uma tripulação é organizada para uma viagem atrás do grande prêmio, mas obstáculos como maldições, traições e os castigos que uma ilha deserta e o mar aberto podem oferecer estão a espreita. Não importa o quão valioso seja o tesouro que Hawkins possa encontrar, o grande presente (tanto para o personagem quanto para o leitor) é o sabor da jornada.

É interessante notar em um livro ou filme de aventura o quanto os personagens transformam-se do princípio ao fim da obra. Ao término de A Ilha do Tesouro é muito perceptível as grandes mudanças que a história conferiu a Jim Hawkins e a seus amigos e inimigos. Esse detalhe mostra a relevância da aventura. É engraçado assistir a um filme e não perceber alteração alguma nos personagens. Se a narrativa não altera seus personagens, não acrescenta nada a eles, o que poderia acrescentar a nós? E o mais irônico, para que foi vivida se não mudou nada?

A Ilha do Tesouro está a quilômetros de sofrer deste mal. A narrativa é instigante e atualíssima apesar da época em que foi escrita (o tomo data de 1883). E os “clichês” que aparecem, ou melhor, o que parece clichê para um leitor que lê a obra nos dias de hoje decorre da enorme influência e repercussão da obra.

Esse título não só tornou o nome de Stevenson muito conhecido como também foi teatralizado, transformado em série de TV e filmado em diferentes versões. O primeiro filme da Disney com atores de carne e osso foi uma adaptação das aventuras de Hawkins. O desenho animado Planeta do Tesouro é uma releitura que transporta a saga do século XVII para os confins do universo. Isso sem contar as influências em filmes mais atuais como Piratas do Caribe e até no mundo dos games (quem já jogou algum jogo da série A Ilha dos Macacos sabe do que estou falando).

A atualidade reside em alguns aspectos da narrativa como quando analisa os personagens psicologicamente e na caracterização de alguns personagens como Long John Silver, um dos vilões mais interessantes da literatura, que é o ator principal de um jogo ardiloso em que muda de posição de acordo com as conveniências (o que muitos políticos não deixam de fazer hoje em dia).

Isso sem falar no “heroísmo disfarçado” do protagonista que é, a princípio inocente, luta sempre acreditando no lado bom dos seres humanos, mas que, mais adiante, não pensa duas vezes antes de fazer alianças sinistras com seus inimigos para garantir sua sobrevivência.

A edição da Martin Claret disponível nas livrarias é uma das versões com o melhor custo-benefício do mercado. Acabamento legal por um preço acessível. A ressalva fica por conta do trabalho de revisão que deixou passar alguns erros escabrosos de português e ausência de alguns artigos (decididamente, mera falta de atenção).

Apesar dos personagens vivenciarem situações de perigo a todo momento, a única situação de risco que você, leitor, pode passar quando terminar a obra é a de desejar bancar um pirata bem truculento com uma espada em uma mão e uma garrafa de rum na outra.

Texto originalmente publicado no site
Raciocínio Rápido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Você já pensou em escrever um livro?



A capa da obra

Imagem: http://www.livrariasaraiva.com.br/imagem/imagem.dll?pro_id=140484&tam=2


Escrever é uma atividade muito prazerosa. É claro que há dias em que estamos mais inspirados do que outros, mas passar suas idéias para o papel não é algo muito complicado. E, logicamente, há pessoas com mais habilidade para esse hábito do que outras, mas todos podem escrever. Basta ter disposição e persistência. Essa é uma das lições que o livro Você já pensou em escrever um livro?, da autora Sonia Belloto, nos transmite.

O título da obra não poderia ser mais direto. Através de um texto gostoso de se ler (li o livro em 3 horas) a autora nos apresenta sua visão, algumas regras e dicas a respeito do mundo do mercado editorial. Ela nos ensina desde técnicas para produzir bons textos até explicações de como publicar um livro sendo um autor novato.

É engraçado que Sonia começa falando sobre as maravilhas de ser um escritor. E, ao final da obra, muda o tom e passa a explicitar as dificuldades do mercado e de se publicar um livro não sendo um escritor conhecido. Ela nos faz nos aproximarmos de um sonho e depois o coloca mais distante de nós.

Devido ao seu tamanho (o livro possui 128 páginas), a obra não se aprofunda muito nos aspectos dos quais aborda. Porém, a superficialidade é balanceada pelo volume de informações que traz em suas páginas. Em alguns momentos, até a história das técnicas de escrita é mencionada.

O livro é um convite a escrever. Acho que agrada mais a quem não possui esse hábito do que quem já o pratica. Muito do que é dito eu sabia de antemão, pois grande parte da bibliografia eu já li. E ler uma idéia em seu contexto original é outra história. Destaco na bibliografia o livro O herói de mil faces, de Joseph Campbell (leitura obrigatória para aqueles que gostam de contar ou ouvir e ler histórias).

Esse convite a escrever, talvez, também seja um chamado a participar da Fábrica de Textos, um projeto que estimula as pessoas a perderem aquele bloqueio que possuem quando tentam rabiscar algumas idéias no papel entre outras atividades. O livro parece ser um resumo dos cursos oferecidos por esse projeto. Aliás, o livro é um produto desta iniciativa. O site do projeto é o www.fabricadetextos.com.br.

Pessoalmente, acho que escrever é uma atividade intelectual tão interessante quanto ler. Por isso leio e escrevo sempre que posso.


Título: Você já pensou em escrever um livro?
Autora: Sonia Belloto
Editora: SAMM
Preço: R$ 19.90
Ano de Publicação: 2003
Número de Páginas: 128

Texto originalmente publicado no site Raciocínio Rápido.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Linguagem entrecortada




Linguagem entrecortada ou narração não linear

Imagem: http://www.externatoescola.com.br/up/cinema.jpg



Após discorrer sobre a Criatividade, A Organização das Idéias e O Repertório, dou sequência a minha série de posts sobre o ato de escrever. Não trata-se de aula ou manual. Nada disso, apenas algumas impressões pessoais desta pessoa que vos escreve. Desta vez, o tema é a linguagem entrecortada!

Diferentemente dos posts anteriores que se propunham a dar dicas sobre a produção de qualquer tipo de texto, este aborda uma técnica especial para produção de textos narrativos. Agora o foco é a narração de histórias e de como tornar esta narração mais envolvente.

Basicamente, toda narração tem um começo, meio e fim. Certo? Cronologicamente, em um filme ou livro, você pode acompanhar desde o nascimento de um personagem, seu crescimento e sua jornada pessoal de descobrimentos e ações. No entato, é possível subverter esta regra. E se o meio visse antes do começo? Ou se a narrativa acontecesse até mesmo pelo seu final?

Isso pode ser mais complexo do que parece. Para certo tipo de público essa técnica pode até ser confusa no início, mas sem dúvida ela é muito envolvente. Principalmente, pois é necessário esquecer momentos muito específicos do passado, presente e futuro de sua história ou personagem para tornar relevante a utilização deste recurso.

Vamos aos exemplos? Vou utilizar três diretores para demonstrar do que eu estou falando: Quentin Tarantino, José Padilha e J.J Abrams.



Quentin Tarantino, diretor de Kill Bill

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Quentin é um diretor americano de filmes mais alternativos. Tais como Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill e Bastardos Inglórios. Todos utilizam esse recurso da linguagem entrecortada. A história começa em um ponto chave e depois voltamos ao passado para compreender os eventos que levaram a ação até aquele momento em que fomos apresentados no início do filme.

Kill Bill (confira as minhas resenhas dos volumes 1 e 2 dessa obra a partir de amanhã por aqui) é até mesmo dividido em capítulos. O que até mesmo facilita a compreensão desse recurso de uma narrativa não linear. Ela não é cronológica. Portanto, o capítulo 1 não acontece antes do 2, mas depois de outro e assim por diante.

O mais interessante é assistir a obra toda (os 2 volumes) até o final e perceber que se o diretor tivesse narrado a história da Noiva cronologicamente, ela não teria a menor graça. Tarantino foi um mestre em contar uma história desta forma. Pois o que nos prende é justamente a curiosidade em descobrir o que motiva todos aqueles personagens. Isso é algo corriqueiro em seus filmes.




José Padilha, diretor de Tropa de Elite 2 Imagem: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/files/2009/12/jose-padilha-paulo-giandaliafolha-imagem.jpg


José Padilha é o diretor dos dois Tropa de Elite. Ambos muito bons por serem inteligentes e muito provocativos (você sai do cinema após assistir Tropa de Elite 2 como se tivesse levado um soco na boca do estômago!). As duas películas com narração de Nascimento (Wagner Moura) começam por um momento importante da história. Algum momento mais impactante ou com mais ação. Então, após os créditos iniciais, a narrativa retrocede até dado momento em que somos apresentados aos personagens que participaram daquela cena inicial e nos são apresentados os eventos que culminarão naquela cena inicial.

A princípio, nossa comprensão é limitada e ao longo do filme ela é expandida para o completo entendimento do que estava acontecendo, afinal, quando o filme se iniciou. Eu gosto deste estilo.




J. J. Abrams, a mente por trás de Lost

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Pra terminar com meus exemplos, temos J.J. Abrams. Ele é diretor do último Jornada nas Estrelas, Missão Impossível III e a mente por trás de Lost.

Em Star Trek, ele não se vale tanto deste recursos de narração não linear. Mas seleciona muito bem eventos da infância e adolescência do futuro Capitão Kirk e Spok para nos permitir compreender as motivações por trás das atitudes destes personagens quando adultos e a ação ganhar vigor ao longo do filme. Pra mim, esse filme é incrível. E, apesar de se tratar uma ficção científica, traz muitos elementos pertinentes a todos nós. Por exemplo, a essência da liderança.

Mas o melhor exemplo de Abrams é Lost. para quem nunca assistiu a série e deseja compreender melhor o que eu estou falando fica a lição de casa. Assista às 6 temporadas. Lost é praticamente um tratado (não encontro palavra melhor) ou uma experiência em linguagem entrecortada.

Os eventos começam no presente. Somos apresentados ás vítimas de um acidente aéreo que caírem em uma misteriosa ilha do Pacífico. Então, em cada episódio, o foco cai sobre determinado personagem que possui certas atitudes que vamos compreendendo através de flashbacks que revelam seus segredos e passado.

Mas o melhor ocorre em uma das temporadas seguintes. Além dos flashbacks, os criadores de Lost passam a narrar também flashfowards!!! Ou seja, somos apresentados a eventos do futuro! Assim, além dos eventos principais que se desenrolam no presente, entendemos as ações dos personagens através da apresentação de eventos de seu passado e ficamos sabendo aos poucos de seu futuro (inclusive se ele irá morrer ou não!).

Nesse sentido, Lost é uma experiência única e inovadora porque subverte até mesmo a narração não linear. Lost nos apresenta um mosaico. Passado, presente e futuro. A princípio peças desconexas que ao longo da narrativa se encaixam com perfeição. Trabalho de mestre.

É isso aí, galera. Para quem curte escrever ou dicas sobre escrita, espero que esse texto tenha inspirado a todos a escrever mais ou assistir a filmes com os olhares mais treinados e atentos!

domingo, 17 de outubro de 2010

Papo Fantástica - 16/10/2010: Review



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Como mencionei no post anterior, eu conferi o evento Papo Fantástica que ocorreu no dia 16 de outubro na Livraria Cultura do Market Place em Sampa. Para quem ainda não sabe, o Papo Fantástica é o Podcast da Revista Fantástica, uma publicação digital (e totalmente gratuita!) sobre literatura fantástica nacional. Uma iniciativa muito bacana que dá espaço para novos autores.

A palestra foi ministrada pela equipe da Revista Fantástica Carol Chiovatto, Leandro Schulai, Luiz Ehlers e Felipe Pierantoni com participação especial de Alba Milena, do blog Psycobooks, e Erick Sama, editor da Editora Draco.

Foram debatidos assuntos diversos tais como o distanciamento que a leitura obrigatória dos clássicos na adolescência provoca nos jovens com relação ao hábito de ler. Concordo com tal ponto de vista. Alguns clássicos são muito rebuscados. Portanto, mais indicados para leitores mais atentos e maduros. Acredito que o hábito de leitura vem em primeiro lugar. Independente do que se lê. O mais importante é incentivar a juventude a ler. Algo comercial? Algo na moda? Ok. Isso vai despertar seu interesse para ler cada vez mais e consequentemente buscar por grandes autores. Inclusive os clássicos.

O grande momento desse debate sobre clássicos ocorreu quando uma jovem de 15 anos da platéia fez uma participação revelando que curte Machado de Assis e um de seus livros preferidos é Dom Casmurro!!! Após esse momento, a discussão chegou ao ponto de alguém perguntar: mas o que define um clássico?

Particularmente, acredito que um clássico é uma obra (isso vale também para o cinema) que rompa com estruturas estabelecidas até o momento de sua criação. Um clássico torna-se clássico quando ele insere novos elementos para a produção de determinado tipo de obra (um filme, um livro, uma pintura, etc). Algo inovador. Que nunca fora feito antes.

Outro bom momento da noite foi quando um dos participantes da platéia afirmou que considera o texto da Stethenie Meyer, a autora de Crepúsculo, fraco e muito ruim. Outras pessoas se posicionaram contrárias a essa opinião informando que inclusive leram o texto original e inglês e defendem a autora da série de vampiros.

Alguém também acrescentou um raciocínio muito interessante a essa questão que é: sem dúvida, os leitores de Meyer se interessarão por vampiros. Isso pode levá-los a ler outras obras sobre o tema tais como Anne Rice, autora de Entrevista com Vampiro (uma das minhas escritoras prediletas), e quem sabe até ler Bram Stoker, simplesmente o criador do Drácula!




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Para os novos autores, sem dúvida, algumas dicas apresentadas por Erick Sama (que recebe diversos originais todos os dias) são imprecindíveis. Erick esclareceu que recebe todo tipo de textos. Desde trabalhos muito ruins até os encantadores que o fisgam na primeira leitura. Ou seja, a seleção de algumas obras é puro feeling. Ele busca a experiência que o leitor irá ter com a obra.

Não é escrever textos sobre algo que está na modinha. É escrever algo que você gostaria de ler. Algo com algum diferencial. Algo em que você acredita. Algo com verdade, como a Carol Chiovatto bem colocou.

Erick também lembrou a importância que existe de pesquisar tudo sobre determinado assunto se você quer escrever sobre ele. Por exemplo, um novo autor decide escrever sobre Pégaso, o cavalo alado da Mitologia Grega. Se ele fizer isso tendo como base apenas Percy Jackson, ele já começou muito mal. Para começar, esse novo autor deve pesquisar tudo que já foi escrito sobre Pégaso e beber da própria fonte, ou seja, a Mitologia Grega de fato que é muito mais rica.

Segundo Erick, ele percebe que recebe muitos originais de autores que acreditam ter produzido algo original, mas que não se deram ao trabalho de pesquisar sobre o assunto antes. Ou seja, acabam produzindo trabalhos semelhantes a outras que já existem no mercado.

Outra discussão interessante e pertinente é a questão do autor e a divulgação de sua obra. Obviamente, a divulgação é responsabilidade da editora que irá publicar o livro. Mas ajuda muito o barulho que o próprio autor consegue fazer. E nada mais chato do que um autor antipático. Este pode até escrever bem, mas se não sabe lidar com pessoas e não tem carisma, muito provável que poucos lhe darão atenção para sua produção intelectual.

Também foi interessante o debate sobre os e-books. Será que um dia os livros físicos como os conhecemos hoje um dia irão desaparecer. Cada um tinha sua opinião. Particularmente, não tenho opinião formada, pois estamos inseridos nesse processo lento e longo. Acredito que se isso acontecer (do livro de papel vier a desaparecer), será algo decidido pela geração de meus netos ou bisnetos. Enfim, não estarei vivo para acompanhar o desfecho desse processo.

Muito divertido e empolgante o evento. O Papo Fantástica tem por meta tornar-se um evento mensal na Livraria Cultura. O próximo evento deve ocorrer no fim de novembro com data a confirmar. Muito importante a participação da platéia que comparece ao evento. Agrega e muito aos debates. Portanto, a presença de todos é muito bem vinda! Quero ver no próximo encontro o autório lotado. Com gente de pé! Eu estarei presente. E você?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A brincadeira de resenhar

Boa noite a todos!

Hoje posto aqui um artigo que escrevi sobre a qualidade das resenhas publicadas na mídia brasileira para a disciplina Crítica da Mídia que tive no meu curso de Jornalismo (concluído em 2005).



Há resenhistas tão medíocres que por falta de tato
resumem uma obra e até revelam seu final


Imagem: http://www.phillyburbs.com/educationguide/images/writer.jpg


"Meu sonho sempre foi trabalhar com este diretor" ou "este foi o trabalho mais gratificante da minha carreira" são tipos de frases que não possuem mais autores. De tão utilizadas levam a lugares comuns e são vazias de real conteúdo numa matéria ou entrevista que aborda determinado lançamento de filme ou livro. Elas são encontradas facilmente em extras de DVDs, matérias da mídia brasileira em geral sobre estrelas do cinema ou que abordem um produto cultural específico (filmes, peças teatrais, livros). Esse conteúdo desinformativo torna-se um problema ainda maior quando surge numa resenha.

Diferentes estudiosos apresentam diferentes definições do que venha a ser uma resenha. Uma das melhores conceituações que já li foi escrita por Maria Margarida de Andrade em seu livro Como preparar trabalhos para cursos de pós-graduação. Ela defende a resenha como um texto que "exige conhecimento do assunto, para estabelecer comparação com outras obras da mesma área e maturidade intelectual para fazer avaliação e emitir juízo de valor".

Um autor de uma resenha deve ter um conhecimento suficiente do assunto que abordará para se despir de preconceitos, contextualizar a obra que pretende resenhar e sugerir ou não a atenção do leitor para o objeto de análise em questão. Logicamente, toda resenha vem embutida com a opinião do escritor. Se este não gostou de determinada película ele deve buscar argumentos concretos para realizar uma crítica negativa e, mesmo que não admire o diretor medíocre ou o ator protagonista canastrão, ele não deve deixar de lado o que o filme tem de bom a oferecer. Caso contrário o próprio resenhista se torna medíocre, fazendo uma crítica pobre com argumentos sem fundamentos. Seria o mesmo que emitir uma opinião ridícula como escrever que não gosta daquela atriz porque ela pinta o cabelo de azul.

Um bom escritor contextualiza a obra resenhada

Ilustração: http://www.paulawirth.com/portfolio/writer.gif


Despir-se de preconceitos talvez seja a tarefa mais difícil de um autor desse tipo de texto, mas uma boa resenha exige esse tipo de aptidão. Sabemos que preconceitos são conceitos enraizados numa pessoa através da cultura ou dos meios de comunicação a que esta tenha acesso, mas isso não é desculpa para um jornalista que não suporta cinema europeu só "descer a lenha" numa película deste gênero.

E mais: um bom resenhista deve oferecer algo além. A resenha não possui uma receita pronta para sua produção. Não trata-se apenas de dizer quem é o autor do livro, o que ele já fez na vida e apresentar uma sinopse de seu novo romance. Há escritores tão medíocres na mídia brasileira que por falta de tato resumem uma obra e até revelam seu final. Aqui aparece a vergonhosa falta de pesquisa e repertório sobre o tema debatido.

Resenha é contexto. A obra analisada deve ser contextualizada, apresentada para um leitor que esteja tomando contato pela primeira vez com este autor ou aquele diretor. A boa resenha não só compara autores com outros da mesma área e gênero, não apenas compara o novo feito de um diretor com seus trabalhos anteriores, mas também capacita o leitor para realizar seu próprio julgamento de valor e permitir a este que se decida se o novo produto cultural em exibição nos cinemas, no teatro ou livraria mais próximos de sua casa mereça sua atenção e valha o tempo que perderá ou ganhará com este link para um novo conhecimento a ser agregado.

A resenha é um jogo divertido entre pessoas interessadas em conhecer novos pontos de vistas. Ler um texto de um bom resenhista é prazerosamente gratificante. Nessa brincadeira, há os que levam a produção de uma resenha com seriedade e outros que não são tão íntegros neste aspecto. Aí se encerra a diferença gritante entre profissionais e amadores.